O quarto do hotel estava vazio e as bitucas de cigarro no cinzeiro, exalavam uma fumaça densa. Ele andou de um lado para o outro se perguntando " Como vou me matar ? "
Refletiu sobre aquilo, refletiu por semanas. De início se sentiu culpado, depois a esperança lhe deu o ar de sua graça e da mesma forma, o abandonou.
Estava deitado em sua cama olhando para o teto, ao seu lado Amanda dormia em um sono profundo. Sua esposa, sua querida esposa, só agora percebera o quanto a amava.
Tinha casa, esposa, uma linda filha e um emprego estável, com um salário baixo mas que cobria as necessidades. "Então por que, Jhonny, por que foi pegar aquela grana emprestada?", pensou em prantos .
Era um viciado, um maldito viciado, um covarde de primeira linha que não conseguia sobreviver a realidade do mundo. Um viciado era isso que ele era, precisava cheirar, beber, precisava disso tudo.
Era outono de 1983, estava no porão de sua casa com os amigos do seu irmão. Todos mais velhos, e ele queria mostrar ser maduro.
Cheirou que nem uma pessoa "descolada" e por fim conseguiu o que queria, impressionou a todos, o preço foi gostar daquilo. Joana, uma moça loira com seios fartos e um olhar penetrante, e que provavelmente já tinha transado com todos ali presentes, até mesmo as garotas, foi seu prêmio pela bravura. Lembrava perfeitamente daqueles grandes seios em sua mão, aquela boca carnuda com sabor de cerveja barata, o calor da sua pernas, tudo era bem nítido em sua mente como um acontecimento recente, um filme passando em uma tela de cinema.
Jhonny vislumbrava o nascer do sol pelas frestas da persiana. "As coisas pequenas da vida são bem mais belas quando se está a beira do precipício". Se sentiu um idiota filosofando.
Voltou subitamente para a mesa, pegou o revólver, engatilhou, o som do gatilho pareceu ecoar pelo quarto, apontou para a cabeça. Logo o devolveu para a mesa, suas mãos tremiam demais.
"Não vou consegui, mas preciso."
Colocou a arma dentro da boca, sentiu o gosto férreo e o metal gelado em sua língua.
Hoje era dia 3 de abril, sua conta estava no negativo, faltando 200 mil mais os juros para quitar sua dívida com os agiotas. Sua vida estava com os dias contados. Com toda certeza.
Observou o ventilador de teto. Arrastou uma cadeira e amarrou sua gravata ao ventilador . Agora era só empurrar a cadeira.
- Tenha um bom dia amor ! - Disse Amanda com seu sorriso cativante. O que cortava seu coração. Ela não sabia o quão falidos estavam, quantas contas estavam atrasadas, acreditava que estava tudo sobre controle e suas vidas pacatas estavam seguras, mal sabia sobre o vício do marido. Seu sorriso era verdadeiro.
Jhonny podia fugir, porém sabia que iriam atrás de sua família, as torturariam com toda certeza, pensou até mesmo que abusaram de Amanda e de Thabata, sua filha de 16 anos. Lágrimas corriam de seu rosto, fugir não era opção porém o suicídio, sua morte traria fim a isso, não teria mais porque eles irem atrás de sua família, ele estava morto, fim do assunto a dívida morreria com ele.
O chão parecia tão distante como se estivesse na beira de um precipício escuro e frio do qual não se conseguia ver o fim. Empurrou a cadeira e sentiu sua garganta sendo fechada pela gravata, seus olhos começaram a lacrimejar, e sua visão começou a ficar turva, até ser abraçado pela escuridão que o tomou por completo. Acordou com um estrondo e uma dor gritante em sua cabeça. Quando se deu por si, estava no chão junto ao ventilador de teto. Estava tão perto. Tão próximo. Uma depressão cega o tomou e ele começou a chorar como uma criança, soluços e lágrimas se fundiam com seu pranto agonizante .
O hospital estava cheio, enfermeiras andavam de um lado para o outro. Jhonny estava uma pilha de nervos, já havia esvaziado dois maços e estava indo para o seu terceiro.
Foi então que o médico saiu da sala de cirurgia com um grande sorriso.
- Você agora é pai de uma menininha linda e saudável. Meus parabéns!
Foi um dia maravilhoso. Jhonny lembrava do momento que pôs seus olhos naquela coisa minúscula, e pensou :como algo tão pequeno poderia trazer tanta felicidade".
- Ela é linda Jhonny.- Exaltou Amanda com a pequena Thabata em seus braços.
O dia terminou com uma carreira de cocaina, para comemorar, e meia garrafa de whisky. Agora se sentia deprimido por lembrar disso. Sua esposa no hospital com sua filha e você na sarjeta, deitado no chão, bêbado que nem um gamba com o nariz queimando.
No quarto do hotel, ele se levantou do chão, andou enxugando as lágrimas e retirando a gravata do pescoço, onde grandes marcas vermelhas se instalaram.
Pegou novamente a arma. Lembrou de Thabata, como ela era linda e inteligente, suas notas na escola eram as melhore, bem diferente das dele na época de colégio. Ela tinha um futuro brilhante tão brilhante. Ele tinha que se matar, ele precisava pois era por elas.
Foi então que uma remota idéia lhe surgiu
" E se meu corpo não for encontrado a tempo?" Os credores achariam que ele havia fugido, dessa forma iriam atrás delas da mesma forma e sua morte seria em vão.
Jhonny andou de um lado para o outro atordoado, chorou, gritou, socou a parede, por fim pegou o revólver e retomou o choro. Tentou uma vez, mirando na cabeça. Por fim largou a arma.

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