A primeira vez que tive um vislumbre de sua existência, seus cabelos loiros se esparramavam pela mesa, como um rio dourado. Logo soub...

     A primeira vez que tive um vislumbre de sua existência, seus cabelos loiros se esparramavam pela mesa, como um rio dourado. Logo soube se tratar de uma bela mulher, mas ainda sem a certeza do que eu estava prestes a sentir. Foi logo após o meu turno, entre mordiscadas do meus almoço lanche e o falatório dos colegas de trabalho, decidi  inspecionar com mais minucia a beldade que ali se encontrava. Guardei minhas coisas e caminhei até seu posto, e lá estava ela. Com sua pele marmórea de uma lividez singela como seda, parecia macia ao toque, seus olhos eram de um tom azulado como as cores de uma praia exótica do caribe, algo do qual nunca imaginei observar, apenas talvez, um pintor saberia me dizer que tonalidade de azul tão magnifica era aquela. O cheiro de rosas tomou minhas narinas e meu coração começou a pulsar dentro do peito. Comecei a imaginar como seria sua voz, como seria seu sorriso, será que ela gostava de poesia ? Minha timidez logo me fez voltar de súbito para a realidade e sai sem dizer uma palavra. 


    Erica, Erica! Esse era seu nome. Naquela noite, tive dificuldade para dormir, sua imagem e sua beleza chegavam a doer na memoria, e principalmente, a vergonha da minha timidez, até quando isso iria continuar. Preso na minha própria existência, uma jaula invisível me impedindo de viver de forma plena. Levantei após alguns goles de água e um banho frio, voltei a dormir e então o sinal divino me arrebatou. 

    A brisa batia suave pelo rosto e o cheiro do mar enchia os pulmões e ela estava ali. Caminhando de forma despretensiosa usava um vestido branco solto no corpo que dançava junto com as ondas do mar. Ela me olhava e o azul penetrava o meu ser entrando em minhas veias, meu corpo, meu coração me preenchendo e quando percebi, tudo era azul... não qualquer azul... o azul de Erica...

 Acordei. Decidido. 


     Estupidos! Cegos ignorantes! Me chamam de monstro aqueles que não enxergam a verdade, aqueles que me condenam. Mas a verdade, pura e su...


    

Estupidos! Cegos ignorantes! Me chamam de monstro aqueles que não enxergam a verdade, aqueles que me condenam. Mas a verdade, pura e sublime, pelo testemunho de Deus, sei que sou um herói e que meu fardo carrego sozinho pois os sacrifícios e a cruz são apenas meus. Hoje sentado em um colchão fino em uma cela pouco iluminada, espero minha sentença, como criminoso, mas sei que no futuro ao lerem essa confissão dos meus atos, alguma mente mais iluminada irá juntar os pontos e perceber que livrei a humanidade de uma sina, de um mal muito maior, e que sirva de alerta a todos pois a luta ainda não acabou!

 

          Meu martírio teve início com ela. A vi passar algumas vezes pelos corredores da universidade. A arquitetura gótica de uma das mais tradicionais universidades do país, combinava de forma peculiar com a palidez quase mórbida, e o estilo "dark academia" dela se vestir. Catarina, era seu nome. Tinha cabelos escuros como a penumbra em uma noite sem estrelas, e olhos pretos brilhantes como se possuíssem um pingo de prata em sua íris, cintilavam como ônix. Não me recordo como ou quando nossos destinos se cruzaram definitivamente. Sei que aos poucos, de forma gradativa nossa relação foi se tornando mais intima, até chegarmos ao altar. 

 

          Os primeiros meses de matrimonio passaram rápido e eu cada vez mais apaixonado, não percebia, ou pelo menos não associei, os primeiros sinais da natureza estranha de minha amada. Era reservada, tímida, tinha poucos amigos, quase nenhum na verdade a maioria eram conhecidos ou amigos meus que por consequência se tornaram dela. Não tinha familiares próximos ainda vivos, e os distantes se igualavam na distância física, a maioria vivia em outros países, na região da Europa Oriental. De sua infância pouco me falava e mesmo questionada dava respostas curtas e sem detalhes significativos. Não havia fotos suas, e toda essa estranheza foi ignorada na época por mim. "minha família viveu em países de guerra e miséria... muita coisa se perdeu" ela se justificava.  

 

          Passei no concurso de investigador forense, e logo compramos nossa primeira casa, um chalé de dois andares, que possuía um bosque aos fundos. Catarina adorou a ideia, gostava do silencio e da tranquilidade, e passou a se dedicar em seus projetos literários, enquanto eu me via cada vez mais trabalhando no centro da cidade e comecei a passar mais tempo no trabalho do que em casa. 

 

          Posso dizer que meu único crime aqui foi não ter dado a devida atenção à minha esposa nesse período, no entanto, hoje dou graças ao bom senhor, pois talvez não estaria vivo para contar essa história. 

 

          Com a mudança estávamos cheios de caixas a organizar. Encontrei uma que contida seus livros e por curiosidade, ou a mão do destino trabalhando, comecei a folheá-los de forma despretensiosa. Acabei encontrando uma foto antiga quase apagada pelo tempo em preto e branco, datada de 1887. Quando olhei com atenção, meu sangue gelou, fiquei atônito e acabei derrubando os livros restantes, encarando a fotografia sem piscar. Tinha um bosque de pinheiros altos escuros e uma cabana ao fundo, havia duas mulheres entre as arvores, vestidas de forma antiga, uma carregava uma cesta com ervas e flores e a outra estava sentada em uma cadeira de madeira, a imagem não teria nada de mais, se a mulher sentada na foto não fosse Catarina. 

 

          Após o choque inicial, procurei uma resposta logica: "talvez fosse uma montagem uma cena de teatro que ela estava atuando na faculdade ou algo similar'.  A ideia de minha esposa ter cerca de 125 anos parecia loucura. Por fim a curiosidade me consumiu e tive que questioná-la. Ela riu, achando pueril e de certa forma “fofo" minha ingenuidade e imaginação, logo explicou se tratar de sua bisavó que chamava Ilka, que era húngara.  Mesmo com a explicação fiquei receoso e questionei sobre a semelhança das duas. " Todas as mulheres da família se parecem muito" disse enquanto olhava a foto.  "Tínhamos muitos gêmeos também, de ambos os lados... tanto de meu pai como da minha mãe" respondeu enquanto recolhia os livros e os organizava na prateleira. 

 

          Foi logo após o primeiro ano juntos que veio a gravidez. gêmeos, duas meninas. Alina e Alice. Eu era um homem realizado e feliz e não via como algo poderia dar errado. Foi nos primeiros anos de vida das meninas que eu me vi exausto. Uma onda de desaparecimentos começou a ocorrer nas localidades. Homens mulheres e crianças de várias idades sumiram, pelo menos sete casos em menos de um ano. Me vi atolado de provas e testes para realizar, e então aquela fotografia me veio à mente como um sexto sentido, e um frio subiu pela minha espinha, talvez fosse um sinal que eu na época ignorei.  

 

    Se passaram alguns meses, e em uma noite de março acordei, sozinho.  Caminhei entre os corredores escuros da casa, escutando o vento açoitando a copa das arvores lá fora. Catarina não estava na casa e a porta da frente se encontrava aberta batendo, talvez fosse isso que me despertou, pensei. Caminhei até o lado de fora e olhei para a escuridão do bosque, as arvores se projetando pelo céu noturno, era noite de lua cheia e as sombras se alongavam como dedos finos. Escutei o som de farfalhar de folhas e galhos e ao olhar para a direção vi o vulto de Catarina, com seus olhos brilhantes e sua camisola rente ao corpo branca como sua pele, fazendo parecer estar nua. Ela ria.  Um par de caninos brancos se projetaram entre os lábios.  Acordei, em sopa, suado e ofegante. Um pesadelo? Olhei em volta e estava sozinho no quarto. Após me recuperar do susto, me levantei e sem titubear fui direto á porta da frente, como no sonho, estava entre aberta, meu sangue gelou, mas antes que eu pudesse sair, ela entrou. Não estava de camisola e sim com seu pijama habitual, ela me encarou quando me viu parado na frente da porta. Seus pês estavam sujos de terra e eu fiquei estático, meu coração parecia querer sair do peito, conseguia escutar o som dos meus próprios batimentos. Ao perceber meu espanto ela disse: "Acho que sou sonambula, acordei no meio do bosque... eu já tinha feito algo parecido antes lembra".  Anui com a cabeça e fui para o banheiro, lavei o rosto e tentei me acalmar o máximo possível.  Não demorou muito para ela bater na porta perguntando se eu estava bem, respondi que sim que eu tive apenas um pesadelo e que estava cansado do trabalho. Por fim esperei no banheiro até o amanhecer e dormi no carro no estacionamento do trabalho. 

 

          O medo começou gradativamente crescer dentro de mim e até mesmo as meninas, que antes eram minha maior fonte de alegria, começaram a me assustar. Aos poucos fui percebendo a semelhança que ambas tinham com a mãe, no tom da pele, na cor e textura dos cabelos e principalmente, o que me trazia mais pavor e me gelava a alma, os olhos pretos com o mesmo brilho cintilante. Minha distância foi percebia e um dia fui questionado. Catarina se sentou do lado da cama e começou a perguntar o que estava acontecendo, claramente temendo pela minha vida omiti a verdade, e aos poucos a conversa foi escalando até mesmo questionado de possuir outra mulher eu fui o que me irritou profundamente.

 

          Não passou muito tempo, e um dos desaparecidos foi localizado, morto. Perguntei aos meus colegas legistas, se o corpo foi encontrado sem sangue e se havia alguma marca aparente no pescoço. Fui tratado com zombaria e desdém e tive que tirar minhas conclusões por mim mesmo. Desci até o necrotério e lá estava o corpo de uma menina aparentemente de uns dezessete anos. Era loira e tinha uma aparência jovial. Olhei para o pescoço e não encontrei nenhum sinal de marcas como as lendas dizem, porém, ao analisar melhor o corpo havia um corte profundo nos pulsos, sinal de suicídio, mas também poderia ser o meio encontrado para beber o sangue. Seria esperto fazer parecer suicídio quando na verdade se tratava de um homicídio. 

 

      Dei início a minha investigação, procurei qualquer vestígio do sobrenome de minha esposa, qualquer fonte. Contatei bibliotecas e até hospitais na Hungria que tivesse qualquer informação sobre seu passado ou o passado de sua família. Aos poucos encontrei alguns vestígios, mas nada relevante. Sua família veio toda da Hungria, tinham fortes raízes na cultura cigana, após a segunda guerra mundial e a revolução húngara de 50, a família se dissipou se refugiando em outros países. Tentei localizar uma tia avó que vivia na Turquia, um primo que morava em Paris, uma tia da Argentina, sem êxito em nenhum. 

 

           Era tarde da noite e eu estava no computador da sala da perícia. Resolvi por pesquisar sobre a mitologia da Europa Oriental, nomes como "shtriga" e "dhampir" apareceram. Seres que consomem a força vital ou sangue eram frequentes na história da região como também relatos históricos como da nobre Isabel Báthory, conhecida como a condessa sangrenta que se banhava no sangue de jovens camponesas para manter sua juventude e beleza, e costumava torturar seus criados. Entre imagens e relatos de diversas fontes, mal percebi o tempo passar, foi então que senti uma respiração em minha nuca e o sussurro. " Tem algo a ver com o seu caso?" Me perguntou, e assustado questionei o que ela fazia ali. Preocupação, disse que eu andava distante ultimamente.  "Shtriga?" perguntou parecendo curiosa." Minha nagymama me contava histórias para dormir, dizia que se eu não me comportasse ela iria me pegar "contou entre risos e um ar nostálgico, porém , de súbito seu semblante mudou. "Você não pensa em contar essas histórias para as meninas não ne... elas não precisam ficar com medo ou pensando besteiras não concorda?" O tom mudou pareceu uma ameaça. Anui com a cabeça e o inusitado ocorreu. Ela se aproximou e me abraçou, me dando, um beijo demorado no pescoço, que me deixou arrepiado, lembrei dos dentes pontudos do sonho. Disse que estava com saudades e que não era para eu demorar.  Ela sabia que eu suspeitava.

 

          O medo foi cada vez mais se agravando, e dormir ao lado dela era uma luta diária. Ficava a observando todos as noites.  Seu rosto fino e pálido coberto pelos cabelos que se misturavam com as sombras, e o anseio, o medo, daqueles olhos se abrirem de súbito brilhantes na escuridão, olhos que não pareciam naturais. Pensei estar louco. 

 

          O tempo se passou e logo as meninas estavam com seus cinco anos de idade, e já começavam a falar e fazer perguntas, e cada dia que passava mais se era notável a semelhança com a mãe, no jeito de andar na fala e nos gostos. Eu nesse tempo atordoado pelo medo de minha própria casa e a insônia me entreguei ao álcool. Entre as peculiaridades que voltavam a ocorrer, destaco as mais sinistras. Um dia Alina acordou de madrugada e sem qualquer motivo saiu pelo bosque no escuro, voltou quando o sol surgia, disse que não se lembrava como chegou ali. Noutro dia Alice apareceu com um animal morto nas mãos, um coelho, vejo o sangue escorrer nos pequenos dedos toda vez que recordo da cena. Segundo Catarina ela queria ajudar o pobre animal, já eu sabia no fundo que ela fizera aquilo, os instintos sobrenaturais estavam aflorando nas meninas. 

 

          Foi então que eu a confrontei, encorajado por uma garrafa de vinho, questionei sobre sua natureza. Ela de início riu acreditando que eu estava brincando, quando percebeu que eu falava sério, seu semblante mudou, tentou justificar as várias estranhezas e por fim saiu sem me confrontar. No outro dia, no entanto, no final da tarde, minha mãe apareceu em casa a pedido de Catarina, após uma longa viagem, logo percebi o perigo. Descobri seu segredo diabólico e era assim que ela queria jogar, ameaçando minha mãe. Eu via o sorriso por de traz daquele rosto preocupado, um sorriso sinistro, ao ver minha surpresa e meu espanto com a situação. 

 

          Pedi um afastamento e fui forçado a me internar. nesse meio tempo as coisas pioraram os desaparecimentos se agravaram e começou uma onda de doenças inexplicáveis pela região. Durante minha internação me apeguei a fé. Logo os sinais do meu martírio ficaram mais claros e pela primeira vez percebi a mão do destino em me colocar ali. No meu último dia na clínica questionei ao pastor se deveria lutar e pôr fim ao demônio que me assolava, e ele me respondeu. " Deus estará contigo nessa luta" 

 

    Entrei na casa de madrugada, enquanto a criatura dormia. Sabia que poderia pegá-la se estivesse desprevenida. tirei os sapatos para o som dos meus paços não serem ouvidos, caminhei como um gato. Levando comigo uma lança de madeira improvisada feita com um cabo de uma vassoura que deixei pontiaguda pois uma estaca seria curta demais e me deixaria próximo da criatura. Louco, um louco calcularia e pensaria isso? Abri a porta devagar e lá estava deitada com a camisola branca do meu sonho. Mais um sinal da mão do destino. Não titubeei, não vacilei, pulei em cima da cama e coloquei todo o peso do meu corpo no movimento, enfiando a lança de madeira pelo seu abdome. A força foi tanta que minhas mãos escorregaram pelo cabo, fazendo a madeira raspar entre os dedos e a palma, rasgando a minha pele, no entanto não senti dor. A ponta perfurou facilmente o corpo da criatura que abriu os olhos em fúria, o sangue começou a escorrer manchando tudo de vermelho. Entre os grunhidos de dor da criatura escutei os passos das meninas que me olhavam pela porta, vacilei por um estante e elas correram. antes que eu pudesse persegui-las a mãe em um excesso de fúria me virou com uma força estrondosa quebrando ao meio a lança e me segurando pelos calcanhares. Seus olhos pareciam duas brasas em acesas. Toda minha coragem se dissipou e ali eu vi o monstro a verdadeira criatura com sangue na boca e uma vontade assassina me agarrando e arranhando. O medo de perder suas crias diabólicas com certeza.  Me desvencilhei com dificuldade e escorreguei no sangue que banhava o chão, caindo e batendo a cabeça com força na quina da porta. Atordoado consegui cambaleante sair pela porta da frente, com os urros e gritos da criatura. Comecei a chamar pelas crias, que desapareceram pelo bosque adentro. Não caminhei muito até a polícia me encontrar e ao me ver banhado em sangue, não tiveram a sensatez de ouvir. 

 

    Tolos! Aquelas crianças iram destruir tudo! Filhas do diabo. Pelo menos me livrei da matriarca que assolava essa terra a centenas de anos, até mesmo mais. Durmo com a consciência tranquila pois não cometi nenhuma barbárie, nenhum crime. Amanhã irei ouvir minha sentença e aqui escreverei com orgulho o que os homens irão me condenar sabendo que Deus irá me recompensar. 

***

 

     Não. Não tenho tempo. As sombras se movem ao meu redor. O demônio é mais forte mais astuto, devo aqui contar de forma breve pois meus dias na terra estão contados. Deus daí me força. Fui condenado por tentativa de homicídio. Ela está viva! A criatura era mais forte do que imaginei. Deveria ter ido no coração como fui estupido. O sol já se foi no horizonte e a noite já está no seu ápice, os corredores escuros da penitenciaria, e o silencio que tudo aqui habita. Ela está aqui, tenho certeza. Logo serei morto. Vejo seus olhos na escuridão. 

O sonho afeta o sonhador. Assim, olho para o sonho como se sonhar significa-se que há dentro no inconsciente, uma surpresa sensorial que tra...


O sonho afeta o sonhador. Assim, olho para o sonho como se sonhar significa-se que há dentro no inconsciente, uma surpresa sensorial que transpira sua essência dentro da alma, banhado em totalidades irrealistas, sobre seus sentimentos mais afins. O pesadelo é, para esta questão, um paradoxo do sonhar, pois retrata como o significado das imagens transcrevem os sentimentos mais profundos de perda e impotência. 


A impotência revela suas imagens e prende, tira a liberdade do indivíduo de pensar, de conceber a razão, e dessa emoção é que permanece parasitando o espirito do ser, no caso, o sentimento de perder. Uivamos a dor, sim, a dor em nosso ego, e revelamos nossa natureza absurda em sustentar-se no desespero, talvez ilusório, de uma quebra da desilusão. 


Retornamos ao mundo real, e visto é o fato, que perder é o sentido da vida que nos traz de volta a nossa humanidade. E a humanidade é essa que se contenta com a felicidade eterna, se da realidade, traz a nós o simples decorrer da causalidade, da morte, da doença, da velhice, da perda e do sofrimento. Que é a coisa é a mais bela, da natureza das coisas belas, vem que apodreçam sobre sua própria feiura?


Perdemos tudo, e agora nada há. Mas se a natureza nos afirma algo, é que o absolutamente nada, não há. Assim, é próprio dizer que a única coisa que nos resta após perder e voltar a realidade, é que a partir daí um novo sentido rebrota da terra, parasitada pelo orgulho e pela ilusão, e agora, inundada pela clareza da consciência, e do apreço do destino. Isso talvez seja uma das coisas mais belas sobre a perda do espirito. Que seja a tristeza a miríade de uma nova humanidade, o brio que precisamos. 




A incógnita que permeia as faculdades humanas, dentre todas as perguntas sobre relações sociais, é a questão sobre a concepção da associação...

A incógnita que permeia as faculdades humanas, dentre todas as perguntas sobre relações sociais, é a questão sobre a concepção da associação humana, como ela aconteceu e como ela visa a surgir naturalmente.  Especula-se que o surgimento da sociedade é intrinsicamente associado ao nascimento da dependência. Logo, tendemos a expressar, o que forma essa relação.

A dependência, é antes de tudo, o primeiro fator que constitui uma relação de instrumentalidade, essa instrumentalidade que por si, significa a utilização do próprio ser humano como instrumento. 

Como os seres humanos visam da natureza, a estender o ser humano ao indivíduo próprio, torna ao instrumentalizado ser próprio e estimado, constitui-se nela um vínculo e, portanto, visando a dependência social. 

Em uma associação social, o ser humano tende a associar-se ao outro pelo valor instrumental que intente a relação. O valor, nesse caso, é a capacidade de extensão, da forma como objetos inanimados estendem as habilidades humanas, as associações sociais estendem a capacidade do ser humano a mutua capacidade instrumental, ao que aufere aos participes da relação social alguma forma de troca de mutual dependência. 

Vimos esse fator as várias relações sociais ou proto-sociais. Entre eles, o exemplo factual é o do surgimento da família, base para a proto-sociedade natural entre os mamíferos, a simples relação de mãe e sua cria, leva ao natural vinculo instrumental, tanto a criança necessita e depende da mãe quanto a mãe depende do filho, institivamente, pela propagação da espécie. 

Poderíamos afirmar que o caráter instrumental da relação social está intrinsicamente vinculado à genética e do quanto a evolução foi de formidável base para a constituição evolutiva da socialização do indivíduo. Os seres sociais, são providos de mecanismos biológicos e gatilhos para socialização, sobretudo, a alcançar um estado de interdependência. Podem ser, estes fatores genéticos, tão simples e primitiva como uma coméia de abelhas, quanto uma sociedade inteira constituída dos mais evoluídos seres sociais.  

Seres se instrumentalizam, logo, cooperam para receber do fruto do vínculo, maiores chances de sobreviver, e no caso da humanidade, um trabalho menos árduo e mais produtivo. Visa a entender logo do “por quê” dos contratos sociais existirem, e das leis da humanidade que seriam afinal, sistemas para proteção do próprio conglomerado social contra tudo aquilo que interrompa a síntese da dependência e instrumentalidade.

Podemos, portanto, divagar mais além. Associamos isso a própria banalização do anarquismo e do comunismo nos séculos 19 e 20, como proteção da sociedade capitalista e da dialética de leis trabalhistas que surgiram durante o período conturbado da guerra fria, entre classes na Idade dos Extremos, essa que foi cunhada por  Hobsbawn. Mais um exemplo seria a sociedade entre bandidos e como isso dá gênese à própria política e na constituição de suas próprias leis, para entender a instrumentalidade de cada indivíduo e seus papeis na empreitada ilegal.

Nessa lógica, se há um padrão e isso deriva do dogma jurídico, “se há a sociedade, há o direito“(Ubi societas, ibi jus). Se há vínculos de dependência entre os seres, há conflito de interesses, e logo, nasce o direito, as nações, as culturas, e todo resto que constitui a sociedade e logo, da humanidade como um todo. 

Isso nos dá a única perspectiva, que do interesse humano na preservação dos laços, hão os interesses, a cooperação e suas regras. Penso eu, que se a natureza é assim, então o anarquismo é um fundamento político impossível. 

Este é o meu pensar. 

Escrito em dois de setembro de 2020.





Brief beauty in The odd As pessoas andavam de um lado para o outro apressadas,  cada segundo um turbilhão de corpos passavam, concentrados e...

Brief beauty in The odd




As pessoas andavam de um lado para o outro apressadas,  cada segundo um turbilhão de corpos passavam, concentrados em seus pequenos universos particulares. Andei alguns passos e me sentei no banco de madeira da estação. Um banco pintado, ou melhor , repintado de verde musgo. Puxei meu maço de cigarros do bolso e me dei ao luxo de alguns minutos de descanso.

A estação foi ficando vazia e o sol se escondeu no horizonte abrindo-se para a noite. As lâmpadas da estação se ascenderam, uma delas era projetada bem acima do banco e lançava uma luz fraca e piscante, tênue em alguns cantos. Algumas tragadas depois, vi pelo canto dos olhos alguém se sentar ao meu lado. Algumas tragadas a mais e percebi se tratar de uma mulher, ainda não dando muita atenção a minha companhia continuei em meu deleite meditativo.

O cigarro  já estava ao fim e começou a queimar a ponta dos meu dedos. Me levantei   procurando o lixo metálico mais próximo, apaguei o cigarro  na sola do  sapato e o joguei. Ao retornar ao banco me deparei com a imagem que se tornara fonte dos meus mais remotos sonhos. Ela era alta, magra,  pálida e  possui-a uma espécie de estranheza bela que instigava, atraia meu olhar como uma mariposa pela luz.  Sua estranha fascinação se dava a  seus  cabelos negros como uma noite de inverno, chegavam a se confundir com as sombras de tão escuros, mas foi seu olhar, ao perceber que eu a observava, que penetrou na minha alma, eram olhos pretos que pareciam duas Ônix em uma estátua de mármore. Isso congelou meu coração e minha respiração ficou pesada. Por um instante acreditei estar perante um fantasma. Ao perceber minha estranha contemplação ela corou, ficando com o rosto quase todo rosado . Meio sem jeito desviei minha atenção, acendi outro cigarro e permaneci em pé. 


Andei até ficar próximo da faixa amarela que demarcava o limite da plataforma. Me permiti a umas tragadas e fiz a fumaça dançar na minha frente. Um repentino frio subiu minha espinha, me senti sendo observado. Os pelos da minha nuca se eriçaram, e por um breve momento, fiquei receoso de olhar para trás e confirmar que  aqueles olhos negros estavam á me observar. Mais uma tragada e me virei para checar. No entanto, ela estava imersa em um livro com a cabeça baixa e seus cabelos presos em uma espécie de coque improvisado. Me senti aliviado e um pouco tolo. Soltei a fumaça que estava presa na boca, não sei se com isso  produzi alguma espécie de  ruído, mas nesse momento ela olhou para mim apenas levantando os olhos. Uma sensação estranha me tomou, algo absurdamente bonito mas ao mesmo tempo aterrorizante. Como estar em um museu vendo belas pinturas e de repente uma delas move os olhos em sua direção. Dessa vez eu logo fiquei  sem graça e decidi quebrar o contado visual . Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas acredito ter visto pela visão periférica, um singelo sorriso apontar em sua boca.


O trem passou em um rasante de luz, e o som dos freios nos trilhos que gradativamente diminuíram até sua parada total. Ela se levantou demonstrando ser mais alta do que eu imaginava, andou até ficar ao meu lado aguardando a porta do trem se abrir. A luz do vagão a iluminou a deixando mais bela, suas feições eram delicadas mas marcantes, e sua palidez era salpicada por pequenas sardas. Ela me olhou com brilho nos olhos negros.


- Tchau. - disse, com um sorriso e uma voz doce.


E eu respondi


- Tchau. - Devo ter demonstrado certo embaraço, pois ela começou a sorrir.


Ela entrou no trem se sentou no banco oposto a porta e continuou me olhando até as portas se fecharem, lentamente o trem partiu e nunca mais a vi.

Pragas Urbanas     Digo que não gosto quando falam que sou uma garota fácil. O que é ser fácil? Porque não usam isso em relação aos...

Pragas Urbanas

 

 

Digo que não gosto quando falam que sou uma garota fácil. O que é ser fácil? Porque não usam isso em relação aos homens? Isso é apenas um desabafo. Peço desculpas pelo que vou contar; não é algo fácil, muito menos bonito, mas irei descrever com o máximo de detalhes que puder lembrar. Pois você é meu confidente; posso te dizer o que eu quiser. Conto-lhe, logo ainda existo. 

Era uma festa como qualquer outra: bebida, musica alta e gente semi nua. Não consigo me lembrar de quem era a festa nem mesmo quem me convidou ou se realmente fui convidada. Porem ali estava com Ele. Loiro com um sorriso fácil e um bronzeado caiçara que me encantava. Dispensei uma meia dúzia de caras e umas duas garotas; não estava interessada, eu queria somente ele naquela noite. Isso é ser fácil ? 

Ficamos juntos quase que a festa toda, bebi, mas não fiquei bêbada; fumei, mas não fiquei chapada. Posso ser sincera aqui. Eu estava apaixonada, não queria mais nada só a presença dele, e eu acreditava de coração que ele queria a minha. 

Antes do final da festa saímos de carro. Achei que iríamos para casa dele, transar e amanhã depois do café eu iria para casa idealizando um possível relacionamento serio. Besta, iludida e idiota? Deixe as ofensas para mais tarde, irei aceita-las.  Fiquei sentada no banco do passageiro com minha mão em sua perna enquanto ele dirigia. Como um casal de verdade, entretanto, ele não estava muito para o românce. Guiava minha mão para cima, para o pau dele, todas as vezes. Eu apertava com carinho meio que dizendo "estou afim", mas logo  de volta para a perna, dizendo "não agora; não assim."

Estávamos em ruas estranhas, desconhecidas,  eu deveria ter começado a me preocupar, foi apenas quando ele estacionou o carro que eu me dei conta . A porta se abriu e dois homens entraram pelos fundos. Um alto grande, que deveria fazer parte do time de futebol ou basquete da faculdade, o outro era miúdo e parecia um esquilo dentuço, com acne atacada na cara.

"Esses são meus amigos... vou dar uma carona para eles"  -Disse Ele.

Não irei dizer seus nomes, você vai perceber no fim que  seria irrelevante saber, mas fomos apresentados e nesse momento eu fiquei com receio, mas de novo fui estúpida e apenas me apresentei como se fossem meus amigos também. Ambos sorriram para mim, e infelizmente acredito ter sorrido de volta.

Continuamos nossa viagem, as casas começaram a  sumir  dando lugar para árvores, vegetação e uma estrada de terra.  Um gelo subiu a minha espinha e fiquei desconfortável. O Grande tentava puxar assunto e ficava encostando em meu ombro, como se fôssemos íntimos. Respondi a todas as perguntas  sempre de forma curta, não ríspida, mas curta.

Paramos em uma espécie de fazenda abandonada, eu questionei; minto, gostaria de ter questionado. Eu apenas fiquei parada esperando os dois descerem. Ele desceu do carro junto com os amigos e me pediu para sair. " Quero te mostrar uma coisa".

O Miúdo me olhava, fitava, analisava como se estivesse em um açougue e eu fosse uma peça de carne. Eu estava de  shorts, não tão curto, tênis, e uma camisa regata sem decote. Isso é roupa de menina fácil ? 
O grande já havia entrado na casa, se é que aquilo ainda poderia ser chamado assim, era um barraco de um sobrado cheio de buracos e teias de aranha mas havia luz dentro, então entrei. Confiando, em meu ficante que naquele momento parecia entusiasmado e feliz, com o sorriso fácil amostra. 

Eu andei pela a relva alta  caminhando a passos curtos em direção a casa,  meu coração estava disparado. Eu sabia que algo estava errado, juro, relutava na esperança de que minhas idealizações infantis fossem correspondidas. 

Ele iria me mostrar uma arma ou algo que o valha, iríamos atirar em garrafas vazias ou latas, eu perceberia que seus amigos eram inofensivos e ate mesmo legais engraçados. E dali iríamos só eu e Ele para casa, dele de preferência. Ele diria coisas como gosto muito de você ou ate mesmo um eu te amo, não é pedir muito é? Faríamos amor, não sexo, e eu acordaria nua em sua cama com o braço dele envolta de mim, tomaríamos café juntos e isso daria inicio de um possível relacionamento. 


 Infelizmente não foi assim.


Antes preciso me desculpar pelo que vou contar a seguir, não é algo que eu gostaria de dizer e acredito que você também não quer saber os detalhes. Se fosse possível eu pularia essa parte da historia, no entanto, eu preciso; preciso lhe dizer tudo, para que você compreenda, para que você sinta o que eu senti. 

Subi as escadas de madeira da entrada, que rangiam em resposta, pareciam reclamar. A porta da entrada estava entre aberta. Ele abriu para mim, como se fosse uma espécie de cavalheiro. A luz interna saiu agredindo meus olhos. Demorei um tempo para que minha visão se acostumasse com o ambiente. A luz era provida por duas lanternas fortes que estavam, cada uma em uma parede, apontadas para o teto, ou o que havia sido um. Havia umas cadeiras antigas e um colchão de casal novo, no meio, algumas garrafas de bebida estavam espalhadas. O Grande estava sentado na cadeira, fumando um baseado, e riu quando entrei. 

Ele me pegou e me abraçou por traz beijando meu pescoço, eu o afastei e perguntei finalmente o que estava acontecendo.  Era uma festinha, Ele dizia, festinha particular só para mim. Como se eu quisesse, como se fosse uma espécie de prêmio. Eu recusei disse que queria ir para casa, ou pensei em dizer, não lembro. Só sei que quando percebi estava no colchão me debatendo e gritando. O Grande segurava meus braços colocando todo seu peso nos meus pulsos, eu sentia o roçar do tecido do colchão, ardia. O Miúdo levantava minha blusa, parecia faminto, abaixou meus sutiã e lambeu meus peitos da forma mais asquerosa possivel. Eu gritava me debatia mas era em vão. Ele abaixou meu shorts e  mandou ficar quieta "você  gosta assim não?!" respondi com uma joelhada na boca dele. Vi o sangue escorrer do seu lábio. Ele me deu um soco na barriga que me fez faltar o ar. 

" Vou te foder, que nem a vadia que você é!"

E assim ele fez, a dor a humilhação, eu não consigo encontrar palavras para descrever. Fui burra confiei nele.  Acreditei. 


Logo acabou, veio o Miúdo, se posicionou para dar prosseguimento. Foi o tempo para meu pé ir direto em seu nariz. Seguido de outro soco na barriga.  "você vai ficar quieta, puta! " seguido de uma cusparada na minha cara. 
Para onde foi o loiro com sorriso fácil carinhoso e gentil. Será que ele chegou a existir? 


Minhas pernas doíam de tanto me debater meus pulsos ficaram dormentes e já estavam em carne viva. O Miúdo foi mais rápido, acredito que era virgem, ou talvez precoce, mas seu cheiro sua cara seu olhar para mim, era degradante e nojento. Por ultimo foi o Grande. não consegui acerta-lo com meu chute ou joelho. Doeu como nunca, minhas lágrimas salgavam a boca. Ele me segurava com menos força mas meus pulsos já estavam tão machucados que a força era o de menos. Demorou um vida,  eu chorava pedia por favor. Eles lançavam palavras nojentas me humilhavam, me deram tapas. Aquilo parecia não ter fim. 

Eu estava, solta deitada, minhas costas doíam, meus pulso, meus braços minhas pernas eu era dor viva e ambulante.  Os grilos cantavam alto lá fora. Eu me encolhi. Chorei. Vi sangue no colchão.  

  Ele pegou minhas pernas e o Grande meus  braços. Me levaram para fora da casa. A grama roçava minhas pernas nuas. Eles caminharam ate os fundo. Vi a lua cheia no céu, e estrelas brilhando. O pequeno empurrou uma pedra redonda e os outros me colocaram na borda. Lembro da rocha áspera . Então me jogaram. 


Cai, uma queda demorada; eterna, sendo gradativamente abraçada pela escuridão. Cheguei ao fundo de costas e a dor aguda penetrou no que restava de mim. Não consegui me mexer, respirar era um tormento. Olhei para cima  e vi seu sorriso fácil, nojento pelo buraco sendo fechado. 

Aquilo talvez fosse um poço ou penas um buraco fundo, um projeto de poço ou o que um dia foi um poço. Não faz diferença. 

Logo eles apareceram; farejando, com seus olhinhos brilhantes e curiosos. Caminhando de um lado para o outro até subirem pelas minhas pernas, passeando com suas pequenas patas. Eu não conseguia me mexer apenas sentir: o toque de suas garras contra a pele, o cheiro de terra úmida, o roçar de seus bigodes em meu rosto. Um deles veio  pelo meu corpo ate meu rosto onde sangue brotava, ele começou a lamber e fazer ruidinhos como se estivesse soltando uma risadinha. É eu sei lastimável, lamentável, triste, como pude ser tão ingênua?
Logo vários se espalharam com seus olhos brilhantes no escuro. Caminhando em mim, como se eu fosse uma calçada. Me ajudar ? Como ? 

Senti peso em meu peito e o ar que já era escasso faltou.  Um vulto negro grande como um gato surgiu com olhos vermelhos cor de sangue fresco.  Se aproximou  do meu rosto  começou a farejar.  Meu ódio crescia, e queimava meu corpo, abracei a dor e a escuridão. 



****


Era uma casa grande, um sobrado, com dois carros na garagem. Ao observar seu quarto com poster de super heróis e modelos de biquíni, percebi que estava certa , ele era virgem. Me esgueirei pelo aposento, mas os sons de meus ossos estalando, como galhos secos se partindo, o acordaram. 

"Quem esta ai ?"- Previsível e infantil. 

Meu filhos, riam dele, se espalhando pelo quarto sem serem vistos. Tentou ascender a luz de seu  abajur, que já  estava com o fio roído. 

Não falou mais nada, apenas respirava com dificuldade, parecia um asmático em crise.  Fios de um bigode brotavam em sua boca dentuça. Quanto tempo fiquei no buraco ?  Eu estava morta ? 

"Você !" foi tudo que  consegui gritar, com uma voz rouca, longa e falha. Me arrastava com dificuldade pelo chão.


Ele estremeceu no escuro tentou correr, meus filhos já estavam em cima nele roendo e arranhando sua face. Um conseguiu entrar  em sua boca, entre  gritos de desespero. Seus braços balançavam de um lado para  outro em pânico. Não demorou muito,  conseguiu entrar dentro dele como se fosse um escorregador em tubo, ficando apenas parte do seu rabo rosado para fora da boca como espaguete. Assim o Miúdo  caiu no chão como um saco de lixo começou a se debater, por um momento ele sumiu, eram um emaranhado de pelos. O sangue começou a escorrer pelo carpete. 

Eu andava como um aranha de quatro patas, me contorcendo, pelas ruas escuras, ninguém me viu ninguém se importou.

Não demorei muito para sentir o cheiro, aquela mistura de maconha e bebida barata. Uma garagem espaçosa com diversos carros antigos, para não chamar de velhos, e uma espécie de kitnet improvisada no canto. O Grande  mexia debaixo do capo de um carro que eu não saberia dizer o nome nem se lesse. Não percebeu minha chegada. A luz se apagou, e eu o observava nitidamente no escuro. 

" Que merda. " - Olhou pra os lados e tateou a parede oposta, procurando por um interruptor. 

Logo percebeu que a energia havia acabado, olhou em uma caixa de papelão desgastada e meio mofada,  pegou uma lanterna. Deve ter percebido o movimento dos meus filhos pelos cantos. Senti o cheiro do medo exalando em seu corpo.  Olhou para a rua e viu a luz das outras casas. Percebeu  que algo estava errado; ou talvez não, deveria ter corrido, como eu também deveria ter corrido dele. Não importava. 

O Grande escutou um ruído, nas prateleiras de ferramentas, um pouco acima de sua cabeça. Foi analisar a procura de algo, empurrou os jarros com parafusos e caixas. Um movimento, rápido uma sombra negra, e meu filho estava em cima dele.  Eles lutaram. O grande se desequilibrou, despencando em cima de suas ferramentas. mas conseguiu agarrar meu filho pelas mão o arrancando de seu rosto; junto com parte de sua pálpebra, que ficou entres os dentes do roedor. O sangue começou a escorrer como se ele estivesse acabado de se abrigado de uma chuva vermelha.  

Sai das sombras e tentei me colocar de pé, senti as duas partes de minha coluna rangerem onde foi quebrada. Fiquei como um ponto de interrogação. O Grande me olhou com espanto. Não gritou; não teve tempo. Meus filhos já estava ali em cima dele. Subiram por debaixo de suas roupas, o devorando como se fosse um grande pedaço de queijo. Ele tentou escapar. Saiu correndo pela garagem se debatendo nos carros, nas paredes, em tudo em seu caminho. Entrou em um dos carros e fechou a porta. Sua pele era toda sangue e feridas. 

Eu me arrastei ate a frente do carro me apoiei no capo e o encarei com meus olhos vermelhos, refletidos no para-brisa. 

" Não é possível, você esta morta ! "- 

Eu acredito ter sorrido, um sorriso negro, como a podridão do meu corpo, com dentes sujos de terra. Ele praguejou, e tentou dar partida no carro. O carro vacilou. Meus filhos estavam se esgueirando pelas engrenagens; logo começaram a entrar, eram muitos, o carro balançava com seus movimentos. O Grande socava o para brisa, e guinchava como um porco sendo abatido. Não demorou muito, não como deveria. 


O cheiro dele era o mais repugnante.  Me arrastei até um motel velho, perto da rodovia principal. Me esgueirei sem ser vista; sem ser notada. O carpete empoeirado, era um motel três estrelas barato, talvez duas. Abria a porta do quarto com facilidade, e silenciosamente me pus debaixo da grande cama king size redonda. Era uma suíte de núpcias. 

"Pararam já de te perseguir ?" - Indagou uma voz feminina. 

" Nada, ficam me fazendo perguntas,  como se eu soubesse onde esta a vadia"- Era Ele. 
" Ela saia com todos, pode estar enfiada na casa de qualquer um, não devo ser o único suspeito"

A  menina confirmou com a cabeça; se jogou na cama; se espalhando como um pudim mole. Eles ficaram ali, juntos, risinhos e o som molhado de beijos ecoava pelo quarto. Você deve estar pensado, como me senti; se senti inveja? Se eu queria estar no lugar dela? Se algo do tipo passou por sua cabeça, pode tirar o cavalinho da chuva. Tudo que eu sentia por ele se transformou em matéria sólida, palpável, algo tão pesado que me fazia queimar, era maior que ódio ou raiva, era vontade pura que saia de sua forma abstrata e se solidificava em força de vontade; corria em mim como lava, percorrendo minhas veias, queimando, me imbuindo, me alimentando. Ele me transformara, não em um mostro, ainda me considero linda, mesmo com a coluna partida e no estado que me encontro, mas em algo que não sei explicar. Naquele momento eu senti pena, da garota, que estava ali como eu estivera uma vez, acreditando, sorrindo. Ela não sabia.

Eles continuaram com os amassos apaixonados, aguardei pacientemente, escutando cada ruído. Meus filhos em silencio se posicionavam entre as parede velhas do motel. Éramos uma legião nos preparando para uma batalha, se colocando em lugares estratégicos, nas linhas inimigas. 
A garota apagou a luz, e assim eu pude me arrastar, deixando apenas a cabeça do lado de fora, observando tudo pelo espelho no teto, meus olhos vermelhos escarlates brilhavam como duas velas. Ela ficou em cima dele enchendo de beijos, pegou uma algema rosa felpuda, e o prendeu a cabeceira da cama. 

"Assim eu gosto, safada" - Ele disse com um tom de voz patético.

Ela continuou, prendendo seus pés, e logo subiu nele dando-lhe mais uma porção de beijos, dizia que amava ele em cochichos e outras coisas do gênero, e ele retribui-a. A garota começou a tirar a roupa, e ele soltou aquele sorriso fácil. Se eu ainda tivesse estômago funcional teria vomitado ali mesmo. Ela levantou. 

" Vou tomar um banho e já volto" 

Ele praguejou indignado, ela deu alguma resposta com risinhos e se dirigiu ao banheiro, por sorte fechou a porta, ficando apenas a fresta de luz do banheiro que saia por debaixo da porta, em conjunto com  a fraca luz da janela semi serrada. Meus filhos começara a rir, "A sorte esta lançada".
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, minha mão já estava sobre sua boca e minhas unhas fincadas em sua cara. 

" Shiuuuuu"

Ele empalideceu, tentou se debater na cama, fazer algum som, mas foi abafado pelo barulho do chuveiro. Eu subi na cama, fiquei em cima dele, colocando todo o meu peso mórbido em cima de seu peito. Meus filhos logo começaram a aparecer, o carpete parecia estar vivo. dois em dois eles subiram na cama, infestando o corpo dele. Deixei que mordessem, mas lentamente sem pressa, esse não iria a lugar nenhum. Ele gemeu, e se debateu em vão.

Primeiro foram as unhas arrancadas a dentadas, depois a falange dos dedos. Meus filhos faziam isso com uma velocidade estrondosa. Sim senti orgulho. 

" Você ... gosta assim... não ?"- Minha voz era falha, baixa como um murmúrio. 

Ele chorou, e logo suas cuecas brancas Calvin Klein, adquiriram o tom amarelado. Meus filhos riram, alto demais. A garota ouviu e abriu a porta do banheiro. Ficou ali pálida com os olhos vidrados em mim, sua voz faltou na garganta, a toalha escorregou de sua mão, expondo seu corpo nu. Eu virei apenas com a parte superior do meu corpo, e a encarei.
Pode ser loucura minha, acredite, por um instante ela pareceu entender, lágrimas escorreram, Não era medo que vi em seus olho, era dor. Um suspiro e ela desmaiou. 
Ela não sabia mesmo.  

Continuei, não sei por quanto tempo. Primeiro foram os olhos, depois a língua; assim ele não gritaria mais, depois suas orelhas e por fim sua genitália roída ate o talo. No entanto eu queria poder fazer mais, queria poder queima-lo vivo um milhão de vezes, queria poder... Eu não merecia aquilo, nunca, ninguém merece algo assim, me sentia suja enganada; e ele estava ali se divertindo; com uma garota que espécie de psicopata ele era, quem ele achava que era para me usar e  descartar como lixo, como um nada.  A morte parecia algo bom demais para ele. 

"Vou aterrorizar seus sonhos, até o fim da sua vida miserável"- dessa vez minha voz não falhou, dessa vez não foi um murmúrio. 


Me arrastei de volta para meu ninho com meu exercito de filhos, como fiquei orgulhosa deles. Ouvi os grilos cantarem alto, senti a relva alta tocar minha pele, a rocha áspera em minha mão, e a queda; dessa vez suave, como uma pena, deslizando pelo ar, pela escuridão. 

Não demorou muito, dias talvez, ouvi seus passos, vasculhando e xeretando pelos lados, haviam cachorros junto. A pedra circular se moveu fazendo a luz do dia penetrar, meus olhos continuaram imóveis encarando o céu.

"Ela esta aqui. Deus do céu! " - As luzes vermelhas e azuis pairavam no ar. Fui encontrada. Não salva. 





























31 de Outubro de 1990 A chuva caia de forma vigorosa e raios dançavam sob o céu escuro ao som de trovões, que por sua vez faziam com que ...

31 de Outubro de 1990
A chuva caia de forma vigorosa e raios dançavam sob o céu escuro ao som de trovões, que por sua vez faziam com que talheres , pratos e xícaras vibrassem com sua força.
Me encontrei encharcado da cabeça aos pés, e tive que procurar abrigo no café Suzane, aquele que ficava na frente do píer. Linda a garçonete, ao me ver, trouxe uma xícara de um bom e quente café.
- Aqui John, para te aquecer- Deixou o café que logo esbanjou um cheiro delicioso .
- Obrigado.
Passaram se alguns minutos,  e eu já me encontrava quase seco, mas nada nem mesmo uma singela enfraquecida, ou sinal de que iria enfraquecer, deu a tempestade. Comecei a olhar o mar que  estava oculto na escuridão que reinava fora do café Suzane. Senti uma leve sensação de solidão, como se estivesse olhando para um abismo do qual  eu estava prestes a  mergulhar. De súbito me virei e comecei a ver televisão, na tentativa de pensar em outra coisa, isso já havia me gerado calafrios demais.
Após um tempo decidi por vez observar novamente o ambiente, mas me limitei a olhar apenas o interior do café . Haviam exatas oito pessoas,  eu, mais quatro clientes, duas garçonetes e o cozinheiro, que não saiu da cozinha em nenhum momento. Entre os clientes , duas amigas que provavelmente tinham acabado seus expedientes no parque de diversões ali das redondezas, ambas estavam com uniformes do parque, e acabaram se abrigando da chuva no café.
Os outros dois clientes, pai e filha. O pai um homem corpulento que não tirava os olhos do jornal, e a filha uma criança de aproximadamente cinco anos de idade  brincava incessantemente com sua luneta.
Voltei os olhos para o jornal do pai, do qual se encontrava completamente seco, logo pensei eles estão de carro, me virei em direção a janela que dava de frente com o estacionamento, e ali estava uma pick-up Ford  prata .
- BINGO !
- Disse alguma coisa querido?
- Ah ! Não. estava apenas pensando alto.
Me retratei com um sorriso
- Cuidado John, você vai acabar ficando doido desse jeito.
Me repreendeu Clara a outra garçonete, do qual viverá boa parte de sua vida trabalhando ali.
Voltei a meus pensamentos, porém antes mesmo de terminar a linha de raciocínio, um estrondo arrebatou, e tudo foi ao chão, inclusive as pessoas .
- MINHA NOSSA ! Disseram as amigas
- SANTO DEUS ! Indagou Linda a garçonete
Todos ficaram estarrecidos. Eu logo pensei , se tratar de um trovão porém fora muito forte para ser um simples trovão, todos levantaram e se empenharam em arrumar tudo, inclusive a si mesmos.
-Papai o que é aquilo ?!
Gritou a criança de  luneta em punho apontando na  direção do mar .
Todos se aproximaram,  ate mesmo Bill o cozinheiro abandonou sua cozinha para checar.
- OH MEU DEUS ! falou após olhar na luneta e passa-la
- DEUS MISERICORDIOSO!  Disse Linda fazendo o sinal da cruz com a mão e passando a luneta.
- Mais que merda e aquela ! Indagou o pai incrédulo
Peguei a luneta, e de inicio nada encontrei, porém ao cair um raio que iluminou o céu , algo distante no horizonte apareceu.  De inicio achei se tratar de uma montanha, porem gradativamete minha visao comecou a dar contorno e forma. Foi então que eu percebi um  ser , monstro ou seja lá o que era aquilo que estava no mar , gigantesco como uma sombra negra que se projetava distante no oceano.
- Filho da puta ! – indaguei ao perceber que aquilo estava crescendo com o tempo.
Sim! Ele vinha em nossa direção.
O desespero tomou conta do grupo, que andava de um lado para o outro desordenadamente. Confesso que até mesmo eu entrei em pânico, mesmo em silêncio, eu estava apavorado por dentro. Passei a mão em meus cabelos úmidos e acendi um cigarro, do qual dei uma longa e demorada tragada. Foi então que Bill o cozinheiro decidiu controlar a situação.
- Se acalmem! – gritou com uma voz de trovão.- precisamos sair daqui  nesse exato momento, arrumem se e vamos dar o fora daqui !
Utilizou de um autoridade digna de um sargento , o que se mostrou efetivo pois todos começaram a se organizar, dando uma leve acalmada nos ânimos que estavam a flor da pele.
Eu me encontrava com estado de espírito abalado, como se estivesse sendo observado ou algo do gênero,  um fio de  intuição parecendo me mostrar alguma coisa. Fui despertado de meu devaneio pelo pai dizendo sobre seu carro e que daria para todos caberem caso alguns ficassem na caçamba, sua voz saiu como um sussurro sem ar porém foi ouvida por todos que logo se moveram em direção a o estacionamento. Exceto por  Linda que com seu jeito dedicado de ser , desde de minha infância fora assim , estava organizando o máximo possível o seu precioso café do qual dedicou sua vida toda  e o amava de paixão.
- Vamos linda , temos que sair . Falei pegando em sua mão e gentilmente a puxei em direção a saída.
Era nítida a dor em seu olhar , o Café Suzane era tudo o que aquela senhora de meia idade possuía,  e abandona-lo, era algo que lhe partia o coração. Relutante mas consciente da situação me seguiu com amargura.
Saímos do café e nos deparamos com o fim da chuva de modo repentino, todos olharam para o céu,  porém apenas eu olhei com certa estranheza
- Graças a deus pelo menos a chuva cessou , não  estava mais aguentando. – desabafou Clara
E foi então que entrei em uma espécie de devaneio, como se o tempo congelasse e naquela fração de segundos a intuição que antes estava querendo me falar algo começou a sussurrar em minha mente .
“talvez você  não tenha visto corretamente,  pense John aquilo o que era aquilo?
Poderia ser  maior do que você imagina Jhon, e mais rápido e mais silencioso do que você pensa, observe o céu. Cuidado Jhon! ”
Olhei para aquele vasto céu negro , um breu se erguia no horizonte. subitamente  pareceu  cair em nossas cabeças, a chuva não cessará,  a coisa que a cobria .
Foi como uma explosão, tudo foi aos ares, não teve tempo de dor de gritos ou mesmo de sangue , em segundos tudo se tornou destroços e a escuridão nos engoliu .
Me recordo de despertar no meio de escombros, esmagado por pedaços de parede,  não me dei conta mas estava com o braço quebrado, algumas costelas e o fêmur fraturados . Com esses olhos que hoje vejo com nitidez as folhas de papel que agora escrevo, eu vi no vasto céu negro , duas grandes esferas amarelas tão imensas que pareciam luas orbitando a escuridão. Eram olhos que me fitavam de longe bem do alto , mas que estavam fixos em mim como se soubessem que eu também os observava. Olhos dos quais nunca esqueci e duvido esquecer algum dia , mesmo hoje ainda tenho pesadelos com aqueles olhos , a sensação da qual eles me proporcionaram , algo tão medonho que não consegui nunca encontrar palavras que os descrevessem, o medo a sensação de impotência e inferioridade que me atingiram e me acompanharam como uma sombra todos os dias de minha vida. Aqueles malditos olhos, aquilo certamente era os olhos da personificação do mal de algo antigo algo além da compreensão humana.
Logo depois fiquei inconsciente e os grandes olhos se foram dando lugar a escuridão total.
Quando despertei me deparei com uma cena que parecia um cenário pós guerra , carros indo de um lado para o outro , pessoas desesperadas , enfermeiros, médicos  bombeiros e policiais ajudando os muitos necessitados que suplicavam por ajuda . Tudo estava em pleno caos , principalmente eu mesmo . Demorei em torno de dez meses para me recuperar, e ainda hoje necessito de bengala para me locomover , e em dias chuvosos minha perna ainda dói , me fazendo recordar desse triste episódio em minha vida.
Porém, mesmo minha condição sendo crítica , não fora eu quem sofrera mais com o ocorrido. Clara a garçonete feriu gravemente a coluna o que lhe tirou o movimento das pernas, Tina uma das funcionárias do parque teve três costelas quebradas e necessitou de uma cirurgia de urgência  (algo que não pode ser feito com a devida  urgência, dada as circunstancias do desastre, o que quase lhe custou a vida ) e por último April, a criança que brincava com a luneta, perdeu o pai e teve que se acostumar com a palavra órfão.
Anthony O’Brien , o pai perecerá no local do acidente junto com Linda Martin,  Bill Thomas e Anna Philips, a outra funcionaria do parque. Todos se foram no próprio local do acidente , morreram na hora , e tenho certeza que mal viram a morte chegando.
Mariana s Bay se tornou  um amontoado de tijolos pedras e poeira , um terço da cidade desmoronou e se tornou mar,  tudo fora destruído não teve exceção  aqueles que não perderam absolutamente tudo , perderam a vida ou algum parente ou amigo.
Enquanto a criatura, permanece um mistério nenhuma foto capturou sua imagem e aqueles que supostamente viram a coisa tinha versões bizarras (mais do que foi o caso ) e sempre mudavam conforme o tempo.
O governo anunciou que o ocorrido foi ocasionado por um terremoto de magnitude 8.0
Muitos discordaram mas alguns preferiram engolir essa explicação do que a de um monstro vindo do mar .Enquanto eu... Eu ainda procuro descobrir a verdade, custe o que custar , pois aquela coisa, aquele monstro, nao poderia ser real , e mesmo que seja eu preciso acha lo e descobrir de uma vez por todas a verdade por trás daqueles olhos.

       Não era real, era algo impossível. Vivo dizendo isso para mim mesma, porém, ainda não consegui me convencer. O fato que me tira o...

     

 Não era real, era algo impossível. Vivo dizendo isso para mim mesma, porém, ainda não consegui me convencer. O fato que me tira o sono é algo de que muitos ririam, outros, mais supersticiosos, engoliriam a história, porém eu me encontro no extremo desse grupo, sendo que além de acreditar eu vi e senti tudo.

Tudo se iniciou com a minha mudança, sai da casa dos meus pais e fui me enfiar em um pequeno apartamento, perto da estação de trem, entre a Menfis com a Potters, bem ali mesmo na esquina. Era um sonho se tornando realidade, independência, liberdade tudo aquilo que qualquer jovem almeja para si em determinado momento da vida.
Minha nova moradia era integrada a um prédio antigo, que já tinha visto melhores dias, atualmente estava cheio de rachaduras e ferrugens, porém, era habitável e tinha um ótimo preço e localização.
Subi os degraus que davam no portão principal até o corredor do térreo. Senhor Ming, um chinês baixo e calvo veio me receber com um sorriso amistoso, era o zelador do prédio havia mais de vinte anos.

- Senhorita Parker, que bom te ver. Deixe me ajudá-la com essas caixas.

Seguimos para o elevador... O elevador se é que podemos chamar ele dessa forma, era uma caixa de ferro com partes enferrujadas que rangia como o inferno. Me senti mal a cada solavanco que aquela bugiganga fazia, e por grande azar meu apartamento ficava no décimo andar, fazendo com que a viagem durasse uma eternidade, se não fosse pelas caixas da mudança eu não ligaria de ter subido os dez lances de escada.

-Essa coisa é segura? – Perguntei, me apertando no canto.

- Sim, Sim, pode ficar tranquila Ming faz reparo nela a cada cinco anos, nunca deu problema. Respondeu o simpático chinês.

Me perguntei se ele estava brincando, mas ele me pareceu falar com seriedade. Reparos a cada cinco anos! Novamente as escadas me pareceram a opção mais válida.

Passei algumas semanas na nova moradia, sem sequer ter entrado uma única vez naquela gerigonça, que educadamente chamavam de elevador. Os dez lances de escada, inicialmente eram um tormento, porem só de imaginar aquela coisa, eu me dava por satisfeita por ter escadas. Depois de alguns dias subi-las ficou mais fácil.

Minha cozinha parecia vazia, enfeitada apenas pela grande garrafa de whisky que meu pai me dera para comemorar a mudança. Eu odeio beber, no entanto ela pareceu trazer um ar de sofisticação a cozinha, então preferi mantê-la.
Foi então que algo passou pela janela, rápido sendo possível apenas o vislumbre de uma sombra, me assustei e atônita, caminhei até a janela. E ali estava um gato preto que escovava os pelos com a língua. Olhei aliviada para o felino que quase me matara de susto.

- Oi como vai? – perguntei para o gato. Então percebi o quão idiota estava sendo.

“Bom dia querida como vão as coisas? ” Perguntava todos os dias a senhora Riggs, minha vizinha, e como no decimo andar não existia muitos apartamentos ocupados, era de se esperar que ela adorou ter uma companhia. Era uma senhora amável de uns cinquenta anos que toda as sextas me trazia algum bolo ou doce, coisa da qual eu ficava gratíssima. A senhora Riggs era tão antiga no prédio quanto o zelador Ming. Sabia quem era cada morador e sua história: Jhon com sua perna quebrada e relatos de monstros, morador do quinto andar, senhorita Phillips com seus sete gatos e um temperamento difícil e pouco social, dona do felino que quase me matara de susto. Entre outros peculiares moradores do prédio. Era divertido ouvir suas histórias e fofocas, de início morar sozinha me pareceu solitário, e ela veio a calhar.

Certo dia voltei tarde do trabalho, tinha perdido o trem das 23h e tive que voltar e pegar um taxi. Uma tempestade caia naquela noite, e eu não tive um dia muito produtivo: dormi mal, tive dores musculares, derramei café na roupa e claro não podemos esquecer, perdi o trem.
Hesitei por um instante na frente do elevador, estava com frio e cansada almejava mais do que tudo a minha cama. Apertei o botão calmamente e logo recebi como resposta o ranger das engrenagens. Ele desceu lentamente por de trás das grades de proteção. Abri com certo esforços mas por fim ela cedeu, ainda hesitante entrei. Cada movimento um solavanco, e um piscar de luzes que me fazia estremecer. Lentamente ele passava pelos andares. Eu já estava ficando incomodada com aquilo, o ranger, e a impressão de que ele iria despencar a qualquer minuto. Subindo como se estivesse se esforçando mais do que deveria. Foi no sexto andar que ele finalmente parou. Pensei em descer e subir o restante do trajeto pela escada, porém, ele despencou, me fazendo cair no chão, e foi parar entre o quinto  e o quarto andar. Comecei a gritar por ajuda.

-Socorro, alguém por favor!

Minha respiração começou a falhar, como se não existisse ar ali dentro, apenas a pequena fresta entre o chão do quinto andar e o teto do elevador, o que não tinha nem trinta centímetros de comprimento, era minha fonte de ar. Então as paredes começaram a se aproximar diminuindo meu espaço gradativamente. Me encostei no canto e respirei fundo, “vai dar tudo certo” repeti para mim mesma com meus olhos fechados. Minhas mãos começavam a suar e novamente tentei gritar por ajuda, porem minha voz ficou presa na garganta parecendo me engasgar como se algo realmente estivesse me sufocando.
 “Vai dar tudo certo, vai dar tudo certo, alguém vai aparecer”  o elevador parecia estar balançando de um lado para o outro rangendo sutilmente os cabos de aço. Foi então que a luz do quinto andar se apagou, e apenas a fraca e amarelada luz do elevador me iluminava. Sombras se moviam no quinto andar.

- Alguém? Por favor estou presa aqui...-Murmurei.

Um silencio surdo tomou conta do mundo, conseguia apenas ouvir minha própria respiração e o ranger dos cabos. “Será que alguém realmente estava ali? – Me aproximei da grade de proteção, olhando mais atentamente a escuridão que reinava no corredor. Uma sombra certamente se movia.
- Por favor me ajude!- Supliquei.

E algo branco, se revelou no final do corredor, começou a se aproximar, foi então que eu percebi que era um rosto, flutuando na escuridão, branco como mármore, e um medo súbito me tomou, e me fez recuar até a parede oposta a grade. Meu coração pareceu sair do meu peito com a força dos batimentos. Lentamente aquilo foi se aproximando até ser iluminado pela luz do elevador. Uma grotesca imagem distorcida, com membros tortos como em um filme de terror, agachada sendo suportada pelos braços e pernas estranhamente contorcidos, olhou para mim com olhos semiabertos, um cabelo preto escorrido que preenchia sua cabeça curvada.
O elevador começou a subir  e eu paralisada olhava aquela coisa me observando por de trás das grades, o elevador subiu até todo o quinto andar desaparecer. Em choque comecei a chorar, eu ainda estava presa naquele maldito elevador, que parou entre o quinto e o sexto andar, as lagrimas escorriam sem parar, foi então que em algum momento adormeci. Acordei com o corpo de bombeiros abrindo as grades, eu me encontrava no quinto andar, todos muito preocupados. Ming foi o primeiro que veio em minha direção.

- Senhorita Parker me perdoe pelo que aconteceu, Tomarei as providencias necessárias, pode confiar em Ming.

Logo depois veio a senhora Riggs me abraçando transtornada, ela me contou que Jhon havia me encontrado, presa no elevador desmaiada, e ligou para o corpo de bombeiros. 
Por fim meu pesadelo teve um ponto positivo, todos os moradores compadeceram com o ocorrido e com o intuito de evitar mais acidentes se uniram para arcar com as custas da reforma do elevador, finalmente o prédio teria um moderno não enferrujado que merecesse o nome de elevador.

- Ficou tão lindo, devíamos ter feito isso a muito tempo.- desabafou um dia  a senhora Riggs sobre a melhoria.- A senhora Ming ficaria tão contente com isso.

- O senhor Ming é casado? – perguntei surpresa

- Viúvo minha querida, ela faleceu de forma trágica. Caiu no poço do elevador, por isso acho que ela gostaria da reforma, talvez se tivéssemos feito isso antes poderíamos ter evitado essa tragédia.

- Como assim caiu no poço?! – perguntei abismada.

-Ai minha querida e uma história muito triste para se contar, eu gostava tanto dela éramos vizinhas, na época eu morava no quinto andar.

Não me lembro do restante da história da senhora Riggs, o choque foi demais, lembro apenas de entrar no meu apartamento, pegar minha xícara e enchê-la com o whisky do meu pai. Desde então comecei a gostar de whisky.



Paradoxo do fogo A odeio , como odeio , ódio profundo que me toma a alma, que me enche, como fogo, arde muito, arde rubro...

Paradoxo do fogo

      A ponta metálica era fria, dura, sendo até possível sentir o orifício circular nas têmporas. Jhonny largou o revólver na mesa de centr...

      A ponta metálica era fria, dura, sendo até possível sentir o orifício circular nas têmporas. Jhonny largou o revólver na mesa de centro, sentia as mãos tremerem e uma pequena gota de suor escorrendo pelo rosto.
O quarto do hotel estava vazio e as bitucas de cigarro no cinzeiro, exalavam uma fumaça densa. Ele andou de um lado para o outro se perguntando " Como vou me matar ? "
Refletiu sobre aquilo, refletiu por semanas. De início se sentiu culpado, depois a esperança lhe deu o ar de sua graça e da mesma forma, o abandonou.




      Estava deitado em sua cama olhando para o teto, ao seu lado Amanda dormia em um sono profundo. Sua esposa, sua querida esposa, só agora percebera o quanto a amava.
Tinha casa, esposa, uma linda filha  e um emprego estável, com um salário baixo mas que cobria as necessidades. "Então por que, Jhonny, por que foi pegar aquela grana emprestada?", pensou em prantos .

Era um viciado, um maldito viciado, um covarde de primeira linha que não conseguia sobreviver a realidade do mundo. Um viciado era isso que ele era, precisava cheirar, beber, precisava disso tudo.

    Era outono de 1983, estava no porão de sua casa com os amigos do seu irmão. Todos mais velhos, e ele queria mostrar ser maduro.
Cheirou que nem uma pessoa "descolada" e por fim conseguiu o que queria, impressionou a todos, o preço foi gostar daquilo. Joana, uma moça loira com seios fartos e um olhar penetrante, e que provavelmente já tinha transado com todos ali presentes, até mesmo as garotas, foi seu prêmio pela bravura. Lembrava perfeitamente daqueles grandes seios em sua mão, aquela boca carnuda com sabor de cerveja barata, o calor da sua pernas, tudo era bem nítido em sua mente como um acontecimento recente, um filme passando em uma tela de cinema.



      Jhonny  vislumbrava o nascer do sol pelas frestas da persiana. "As coisas pequenas da vida são bem mais belas quando se está a beira do precipício". Se sentiu um idiota filosofando.

Voltou subitamente para a mesa, pegou o revólver, engatilhou, o som do gatilho pareceu ecoar pelo quarto, apontou para a cabeça. Logo o devolveu para a mesa, suas mãos tremiam demais.
"Não vou consegui, mas preciso."
Colocou a arma dentro da boca, sentiu o gosto férreo e o metal gelado em sua língua.
O dedo pressionou o gatilho levemente, porém logo largou a arma novamente. Era um covarde.



      Hoje era dia 3 de abril, sua conta estava no negativo, faltando 200 mil mais os juros para quitar sua dívida com os agiotas. Sua vida estava com os dias contados. Com toda certeza.
Observou o ventilador de teto. Arrastou uma cadeira e amarrou sua gravata ao ventilador . Agora era só empurrar a cadeira.



  -  Tenha um bom dia amor ! - Disse Amanda com seu sorriso cativante. O que cortava seu coração. Ela não sabia o quão falidos estavam, quantas contas estavam atrasadas, acreditava que estava tudo sobre controle e suas vidas pacatas estavam seguras, mal sabia sobre o vício do marido. Seu sorriso era verdadeiro.

     Jhonny podia fugir, porém sabia que iriam atrás de sua família, as torturariam com toda certeza, pensou até mesmo que abusaram de Amanda e de Thabata, sua filha de 16 anos. Lágrimas corriam de seu rosto, fugir não era opção porém o suicídio, sua morte traria fim a isso, não teria mais porque eles irem atrás de sua família, ele estava morto, fim do assunto a dívida morreria com ele. 

     O chão parecia tão distante como se estivesse na beira de um precipício escuro e frio do qual não se conseguia ver o fim. Empurrou a cadeira e sentiu sua garganta sendo fechada pela gravata, seus olhos começaram a lacrimejar, e sua visão começou a ficar turva, até ser abraçado pela escuridão que o tomou por completo. Acordou com um estrondo e uma dor gritante em sua cabeça. Quando se deu por si, estava no chão junto ao ventilador de teto. Estava tão perto. Tão próximo. Uma depressão cega o tomou e ele começou a chorar como uma criança, soluços e  lágrimas se fundiam com seu pranto agonizante .





     O hospital estava cheio, enfermeiras andavam de um lado para o outro. Jhonny estava uma pilha de nervos, já havia esvaziado dois maços  e estava indo para o seu terceiro.

Foi então que o médico saiu da sala de cirurgia com um grande sorriso.

  -  Você agora é pai de uma menininha linda e saudável. Meus parabéns!
 
Foi um dia maravilhoso. Jhonny lembrava do momento que pôs seus olhos naquela coisa minúscula, e pensou :como algo tão pequeno poderia trazer tanta felicidade".

  - Ela é linda Jhonny.- Exaltou Amanda com a pequena Thabata em seus braços.

       O dia terminou com uma  carreira de cocaina, para comemorar, e meia garrafa de whisky. Agora se sentia deprimido por lembrar disso. Sua esposa no hospital com sua filha e você na sarjeta, deitado no chão, bêbado que nem um gamba com o nariz queimando.




    No quarto do hotel, ele se levantou do chão, andou enxugando as lágrimas e retirando a gravata do pescoço, onde grandes marcas vermelhas se instalaram.
Pegou novamente a arma. Lembrou de Thabata, como ela era linda e inteligente, suas notas na escola eram as melhore, bem diferente das dele na época de colégio. Ela tinha um futuro brilhante tão brilhante. Ele tinha que se matar, ele precisava pois era por elas.
Foi então que uma remota idéia lhe surgiu
" E se meu corpo não for encontrado a tempo?"  Os credores achariam que ele havia fugido, dessa forma iriam atrás delas da mesma  forma  e sua morte seria em vão.
Jhonny andou de um lado para o outro atordoado, chorou, gritou, socou a parede, por fim pegou o revólver e retomou o choro. Tentou uma vez, mirando na cabeça. Por fim largou a arma.
      Parou enxugou novamente os olhos, agora com a barra de sua camiseta. Olhou para o céu emoldurado pela janela aberta. Um vasto céu azulado sem nuvens com um sol alaranja vivo. Respirou fundo e se jogou naquele céu.