Estupidos! Cegos ignorantes! Me chamam de monstro aqueles que não enxergam a verdade, aqueles que me condenam. Mas a verdade, pura e su...

O Martírio


    

Estupidos! Cegos ignorantes! Me chamam de monstro aqueles que não enxergam a verdade, aqueles que me condenam. Mas a verdade, pura e sublime, pelo testemunho de Deus, sei que sou um herói e que meu fardo carrego sozinho pois os sacrifícios e a cruz são apenas meus. Hoje sentado em um colchão fino em uma cela pouco iluminada, espero minha sentença, como criminoso, mas sei que no futuro ao lerem essa confissão dos meus atos, alguma mente mais iluminada irá juntar os pontos e perceber que livrei a humanidade de uma sina, de um mal muito maior, e que sirva de alerta a todos pois a luta ainda não acabou!

 

          Meu martírio teve início com ela. A vi passar algumas vezes pelos corredores da universidade. A arquitetura gótica de uma das mais tradicionais universidades do país, combinava de forma peculiar com a palidez quase mórbida, e o estilo "dark academia" dela se vestir. Catarina, era seu nome. Tinha cabelos escuros como a penumbra em uma noite sem estrelas, e olhos pretos brilhantes como se possuíssem um pingo de prata em sua íris, cintilavam como ônix. Não me recordo como ou quando nossos destinos se cruzaram definitivamente. Sei que aos poucos, de forma gradativa nossa relação foi se tornando mais intima, até chegarmos ao altar. 

 

          Os primeiros meses de matrimonio passaram rápido e eu cada vez mais apaixonado, não percebia, ou pelo menos não associei, os primeiros sinais da natureza estranha de minha amada. Era reservada, tímida, tinha poucos amigos, quase nenhum na verdade a maioria eram conhecidos ou amigos meus que por consequência se tornaram dela. Não tinha familiares próximos ainda vivos, e os distantes se igualavam na distância física, a maioria vivia em outros países, na região da Europa Oriental. De sua infância pouco me falava e mesmo questionada dava respostas curtas e sem detalhes significativos. Não havia fotos suas, e toda essa estranheza foi ignorada na época por mim. "minha família viveu em países de guerra e miséria... muita coisa se perdeu" ela se justificava.  

 

          Passei no concurso de investigador forense, e logo compramos nossa primeira casa, um chalé de dois andares, que possuía um bosque aos fundos. Catarina adorou a ideia, gostava do silencio e da tranquilidade, e passou a se dedicar em seus projetos literários, enquanto eu me via cada vez mais trabalhando no centro da cidade e comecei a passar mais tempo no trabalho do que em casa. 

 

          Posso dizer que meu único crime aqui foi não ter dado a devida atenção à minha esposa nesse período, no entanto, hoje dou graças ao bom senhor, pois talvez não estaria vivo para contar essa história. 

 

          Com a mudança estávamos cheios de caixas a organizar. Encontrei uma que contida seus livros e por curiosidade, ou a mão do destino trabalhando, comecei a folheá-los de forma despretensiosa. Acabei encontrando uma foto antiga quase apagada pelo tempo em preto e branco, datada de 1887. Quando olhei com atenção, meu sangue gelou, fiquei atônito e acabei derrubando os livros restantes, encarando a fotografia sem piscar. Tinha um bosque de pinheiros altos escuros e uma cabana ao fundo, havia duas mulheres entre as arvores, vestidas de forma antiga, uma carregava uma cesta com ervas e flores e a outra estava sentada em uma cadeira de madeira, a imagem não teria nada de mais, se a mulher sentada na foto não fosse Catarina. 

 

          Após o choque inicial, procurei uma resposta logica: "talvez fosse uma montagem uma cena de teatro que ela estava atuando na faculdade ou algo similar'.  A ideia de minha esposa ter cerca de 125 anos parecia loucura. Por fim a curiosidade me consumiu e tive que questioná-la. Ela riu, achando pueril e de certa forma “fofo" minha ingenuidade e imaginação, logo explicou se tratar de sua bisavó que chamava Ilka, que era húngara.  Mesmo com a explicação fiquei receoso e questionei sobre a semelhança das duas. " Todas as mulheres da família se parecem muito" disse enquanto olhava a foto.  "Tínhamos muitos gêmeos também, de ambos os lados... tanto de meu pai como da minha mãe" respondeu enquanto recolhia os livros e os organizava na prateleira. 

 

          Foi logo após o primeiro ano juntos que veio a gravidez. gêmeos, duas meninas. Alina e Alice. Eu era um homem realizado e feliz e não via como algo poderia dar errado. Foi nos primeiros anos de vida das meninas que eu me vi exausto. Uma onda de desaparecimentos começou a ocorrer nas localidades. Homens mulheres e crianças de várias idades sumiram, pelo menos sete casos em menos de um ano. Me vi atolado de provas e testes para realizar, e então aquela fotografia me veio à mente como um sexto sentido, e um frio subiu pela minha espinha, talvez fosse um sinal que eu na época ignorei.  

 

    Se passaram alguns meses, e em uma noite de março acordei, sozinho.  Caminhei entre os corredores escuros da casa, escutando o vento açoitando a copa das arvores lá fora. Catarina não estava na casa e a porta da frente se encontrava aberta batendo, talvez fosse isso que me despertou, pensei. Caminhei até o lado de fora e olhei para a escuridão do bosque, as arvores se projetando pelo céu noturno, era noite de lua cheia e as sombras se alongavam como dedos finos. Escutei o som de farfalhar de folhas e galhos e ao olhar para a direção vi o vulto de Catarina, com seus olhos brilhantes e sua camisola rente ao corpo branca como sua pele, fazendo parecer estar nua. Ela ria.  Um par de caninos brancos se projetaram entre os lábios.  Acordei, em sopa, suado e ofegante. Um pesadelo? Olhei em volta e estava sozinho no quarto. Após me recuperar do susto, me levantei e sem titubear fui direto á porta da frente, como no sonho, estava entre aberta, meu sangue gelou, mas antes que eu pudesse sair, ela entrou. Não estava de camisola e sim com seu pijama habitual, ela me encarou quando me viu parado na frente da porta. Seus pês estavam sujos de terra e eu fiquei estático, meu coração parecia querer sair do peito, conseguia escutar o som dos meus próprios batimentos. Ao perceber meu espanto ela disse: "Acho que sou sonambula, acordei no meio do bosque... eu já tinha feito algo parecido antes lembra".  Anui com a cabeça e fui para o banheiro, lavei o rosto e tentei me acalmar o máximo possível.  Não demorou muito para ela bater na porta perguntando se eu estava bem, respondi que sim que eu tive apenas um pesadelo e que estava cansado do trabalho. Por fim esperei no banheiro até o amanhecer e dormi no carro no estacionamento do trabalho. 

 

          O medo começou gradativamente crescer dentro de mim e até mesmo as meninas, que antes eram minha maior fonte de alegria, começaram a me assustar. Aos poucos fui percebendo a semelhança que ambas tinham com a mãe, no tom da pele, na cor e textura dos cabelos e principalmente, o que me trazia mais pavor e me gelava a alma, os olhos pretos com o mesmo brilho cintilante. Minha distância foi percebia e um dia fui questionado. Catarina se sentou do lado da cama e começou a perguntar o que estava acontecendo, claramente temendo pela minha vida omiti a verdade, e aos poucos a conversa foi escalando até mesmo questionado de possuir outra mulher eu fui o que me irritou profundamente.

 

          Não passou muito tempo, e um dos desaparecidos foi localizado, morto. Perguntei aos meus colegas legistas, se o corpo foi encontrado sem sangue e se havia alguma marca aparente no pescoço. Fui tratado com zombaria e desdém e tive que tirar minhas conclusões por mim mesmo. Desci até o necrotério e lá estava o corpo de uma menina aparentemente de uns dezessete anos. Era loira e tinha uma aparência jovial. Olhei para o pescoço e não encontrei nenhum sinal de marcas como as lendas dizem, porém, ao analisar melhor o corpo havia um corte profundo nos pulsos, sinal de suicídio, mas também poderia ser o meio encontrado para beber o sangue. Seria esperto fazer parecer suicídio quando na verdade se tratava de um homicídio. 

 

      Dei início a minha investigação, procurei qualquer vestígio do sobrenome de minha esposa, qualquer fonte. Contatei bibliotecas e até hospitais na Hungria que tivesse qualquer informação sobre seu passado ou o passado de sua família. Aos poucos encontrei alguns vestígios, mas nada relevante. Sua família veio toda da Hungria, tinham fortes raízes na cultura cigana, após a segunda guerra mundial e a revolução húngara de 50, a família se dissipou se refugiando em outros países. Tentei localizar uma tia avó que vivia na Turquia, um primo que morava em Paris, uma tia da Argentina, sem êxito em nenhum. 

 

           Era tarde da noite e eu estava no computador da sala da perícia. Resolvi por pesquisar sobre a mitologia da Europa Oriental, nomes como "shtriga" e "dhampir" apareceram. Seres que consomem a força vital ou sangue eram frequentes na história da região como também relatos históricos como da nobre Isabel Báthory, conhecida como a condessa sangrenta que se banhava no sangue de jovens camponesas para manter sua juventude e beleza, e costumava torturar seus criados. Entre imagens e relatos de diversas fontes, mal percebi o tempo passar, foi então que senti uma respiração em minha nuca e o sussurro. " Tem algo a ver com o seu caso?" Me perguntou, e assustado questionei o que ela fazia ali. Preocupação, disse que eu andava distante ultimamente.  "Shtriga?" perguntou parecendo curiosa." Minha nagymama me contava histórias para dormir, dizia que se eu não me comportasse ela iria me pegar "contou entre risos e um ar nostálgico, porém , de súbito seu semblante mudou. "Você não pensa em contar essas histórias para as meninas não ne... elas não precisam ficar com medo ou pensando besteiras não concorda?" O tom mudou pareceu uma ameaça. Anui com a cabeça e o inusitado ocorreu. Ela se aproximou e me abraçou, me dando, um beijo demorado no pescoço, que me deixou arrepiado, lembrei dos dentes pontudos do sonho. Disse que estava com saudades e que não era para eu demorar.  Ela sabia que eu suspeitava.

 

          O medo foi cada vez mais se agravando, e dormir ao lado dela era uma luta diária. Ficava a observando todos as noites.  Seu rosto fino e pálido coberto pelos cabelos que se misturavam com as sombras, e o anseio, o medo, daqueles olhos se abrirem de súbito brilhantes na escuridão, olhos que não pareciam naturais. Pensei estar louco. 

 

          O tempo se passou e logo as meninas estavam com seus cinco anos de idade, e já começavam a falar e fazer perguntas, e cada dia que passava mais se era notável a semelhança com a mãe, no jeito de andar na fala e nos gostos. Eu nesse tempo atordoado pelo medo de minha própria casa e a insônia me entreguei ao álcool. Entre as peculiaridades que voltavam a ocorrer, destaco as mais sinistras. Um dia Alina acordou de madrugada e sem qualquer motivo saiu pelo bosque no escuro, voltou quando o sol surgia, disse que não se lembrava como chegou ali. Noutro dia Alice apareceu com um animal morto nas mãos, um coelho, vejo o sangue escorrer nos pequenos dedos toda vez que recordo da cena. Segundo Catarina ela queria ajudar o pobre animal, já eu sabia no fundo que ela fizera aquilo, os instintos sobrenaturais estavam aflorando nas meninas. 

 

          Foi então que eu a confrontei, encorajado por uma garrafa de vinho, questionei sobre sua natureza. Ela de início riu acreditando que eu estava brincando, quando percebeu que eu falava sério, seu semblante mudou, tentou justificar as várias estranhezas e por fim saiu sem me confrontar. No outro dia, no entanto, no final da tarde, minha mãe apareceu em casa a pedido de Catarina, após uma longa viagem, logo percebi o perigo. Descobri seu segredo diabólico e era assim que ela queria jogar, ameaçando minha mãe. Eu via o sorriso por de traz daquele rosto preocupado, um sorriso sinistro, ao ver minha surpresa e meu espanto com a situação. 

 

          Pedi um afastamento e fui forçado a me internar. nesse meio tempo as coisas pioraram os desaparecimentos se agravaram e começou uma onda de doenças inexplicáveis pela região. Durante minha internação me apeguei a fé. Logo os sinais do meu martírio ficaram mais claros e pela primeira vez percebi a mão do destino em me colocar ali. No meu último dia na clínica questionei ao pastor se deveria lutar e pôr fim ao demônio que me assolava, e ele me respondeu. " Deus estará contigo nessa luta" 

 

    Entrei na casa de madrugada, enquanto a criatura dormia. Sabia que poderia pegá-la se estivesse desprevenida. tirei os sapatos para o som dos meus paços não serem ouvidos, caminhei como um gato. Levando comigo uma lança de madeira improvisada feita com um cabo de uma vassoura que deixei pontiaguda pois uma estaca seria curta demais e me deixaria próximo da criatura. Louco, um louco calcularia e pensaria isso? Abri a porta devagar e lá estava deitada com a camisola branca do meu sonho. Mais um sinal da mão do destino. Não titubeei, não vacilei, pulei em cima da cama e coloquei todo o peso do meu corpo no movimento, enfiando a lança de madeira pelo seu abdome. A força foi tanta que minhas mãos escorregaram pelo cabo, fazendo a madeira raspar entre os dedos e a palma, rasgando a minha pele, no entanto não senti dor. A ponta perfurou facilmente o corpo da criatura que abriu os olhos em fúria, o sangue começou a escorrer manchando tudo de vermelho. Entre os grunhidos de dor da criatura escutei os passos das meninas que me olhavam pela porta, vacilei por um estante e elas correram. antes que eu pudesse persegui-las a mãe em um excesso de fúria me virou com uma força estrondosa quebrando ao meio a lança e me segurando pelos calcanhares. Seus olhos pareciam duas brasas em acesas. Toda minha coragem se dissipou e ali eu vi o monstro a verdadeira criatura com sangue na boca e uma vontade assassina me agarrando e arranhando. O medo de perder suas crias diabólicas com certeza.  Me desvencilhei com dificuldade e escorreguei no sangue que banhava o chão, caindo e batendo a cabeça com força na quina da porta. Atordoado consegui cambaleante sair pela porta da frente, com os urros e gritos da criatura. Comecei a chamar pelas crias, que desapareceram pelo bosque adentro. Não caminhei muito até a polícia me encontrar e ao me ver banhado em sangue, não tiveram a sensatez de ouvir. 

 

    Tolos! Aquelas crianças iram destruir tudo! Filhas do diabo. Pelo menos me livrei da matriarca que assolava essa terra a centenas de anos, até mesmo mais. Durmo com a consciência tranquila pois não cometi nenhuma barbárie, nenhum crime. Amanhã irei ouvir minha sentença e aqui escreverei com orgulho o que os homens irão me condenar sabendo que Deus irá me recompensar. 

***

 

     Não. Não tenho tempo. As sombras se movem ao meu redor. O demônio é mais forte mais astuto, devo aqui contar de forma breve pois meus dias na terra estão contados. Deus daí me força. Fui condenado por tentativa de homicídio. Ela está viva! A criatura era mais forte do que imaginei. Deveria ter ido no coração como fui estupido. O sol já se foi no horizonte e a noite já está no seu ápice, os corredores escuros da penitenciaria, e o silencio que tudo aqui habita. Ela está aqui, tenho certeza. Logo serei morto. Vejo seus olhos na escuridão. 

0 comentários: