Não era real, era algo impossível. Vivo dizendo isso para mim mesma, porém, ainda não consegui me convencer. O fato que me tira o sono é algo de que muitos ririam, outros, mais supersticiosos, engoliriam a história, porém eu me encontro no extremo desse grupo, sendo que além de acreditar eu vi e senti tudo.
Tudo se iniciou com a minha mudança, sai da casa dos meus pais e fui me enfiar em um pequeno apartamento, perto da estação de trem, entre a Menfis com a Potters, bem ali mesmo na esquina. Era um sonho se tornando realidade, independência, liberdade tudo aquilo que qualquer jovem almeja para si em determinado momento da vida.
Minha nova moradia era integrada a um prédio antigo, que já tinha visto melhores dias, atualmente estava cheio de rachaduras e ferrugens, porém, era habitável e tinha um ótimo preço e localização.
Subi os degraus que davam no portão principal até o corredor do térreo. Senhor Ming, um chinês baixo e calvo veio me receber com um sorriso amistoso, era o zelador do prédio havia mais de vinte anos.
- Senhorita Parker, que bom te ver. Deixe me ajudá-la com essas caixas.
Seguimos para o elevador... O elevador se é que podemos chamar ele dessa forma, era uma caixa de ferro com partes enferrujadas que rangia como o inferno. Me senti mal a cada solavanco que aquela bugiganga fazia, e por grande azar meu apartamento ficava no décimo andar, fazendo com que a viagem durasse uma eternidade, se não fosse pelas caixas da mudança eu não ligaria de ter subido os dez lances de escada.
-Essa coisa é segura? – Perguntei, me apertando no canto.
- Sim, Sim, pode ficar tranquila Ming faz reparo nela a cada cinco anos, nunca deu problema. Respondeu o simpático chinês.
Passei algumas semanas na nova moradia, sem sequer ter entrado uma única vez naquela gerigonça, que educadamente chamavam de elevador. Os dez lances de escada, inicialmente eram um tormento, porem só de imaginar aquela coisa, eu me dava por satisfeita por ter escadas. Depois de alguns dias subi-las ficou mais fácil.
- Oi como vai? – perguntei para o gato. Então percebi o quão idiota estava sendo.
“Bom dia querida como vão as coisas? ” Perguntava todos os dias a senhora Riggs, minha vizinha, e como no decimo andar não existia muitos apartamentos ocupados, era de se esperar que ela adorou ter uma companhia. Era uma senhora amável de uns cinquenta anos que toda as sextas me trazia algum bolo ou doce, coisa da qual eu ficava gratíssima. A senhora Riggs era tão antiga no prédio quanto o zelador Ming. Sabia quem era cada morador e sua história: Jhon com sua perna quebrada e relatos de monstros, morador do quinto andar, senhorita Phillips com seus sete gatos e um temperamento difícil e pouco social, dona do felino que quase me matara de susto. Entre outros peculiares moradores do prédio. Era divertido ouvir suas histórias e fofocas, de início morar sozinha me pareceu solitário, e ela veio a calhar.
Certo dia voltei tarde do trabalho, tinha perdido o trem das 23h e tive que voltar e pegar um taxi. Uma tempestade caia naquela noite, e eu não tive um dia muito produtivo: dormi mal, tive dores musculares, derramei café na roupa e claro não podemos esquecer, perdi o trem.
Hesitei por um instante na frente do elevador, estava com frio e cansada almejava mais do que tudo a minha cama. Apertei o botão calmamente e logo recebi como resposta o ranger das engrenagens. Ele desceu lentamente por de trás das grades de proteção. Abri com certo esforços mas por fim ela cedeu, ainda hesitante entrei. Cada movimento um solavanco, e um piscar de luzes que me fazia estremecer. Lentamente ele passava pelos andares. Eu já estava ficando incomodada com aquilo, o ranger, e a impressão de que ele iria despencar a qualquer minuto. Subindo como se estivesse se esforçando mais do que deveria. Foi no sexto andar que ele finalmente parou. Pensei em descer e subir o restante do trajeto pela escada, porém, ele despencou, me fazendo cair no chão, e foi parar entre o quinto e o quarto andar. Comecei a gritar por ajuda.
-Socorro, alguém por favor!
Minha respiração começou a falhar, como se não existisse ar ali dentro, apenas a pequena fresta entre o chão do quinto andar e o teto do elevador, o que não tinha nem trinta centímetros de comprimento, era minha fonte de ar. Então as paredes começaram a se aproximar diminuindo meu espaço gradativamente. Me encostei no canto e respirei fundo, “vai dar tudo certo” repeti para mim mesma com meus olhos fechados. Minhas mãos começavam a suar e novamente tentei gritar por ajuda, porem minha voz ficou presa na garganta parecendo me engasgar como se algo realmente estivesse me sufocando.
- Alguém? Por favor estou presa aqui...-Murmurei.
Um silencio surdo tomou conta do mundo, conseguia apenas ouvir minha própria respiração e o ranger dos cabos. “Será que alguém realmente estava ali? – Me aproximei da grade de proteção, olhando mais atentamente a escuridão que reinava no corredor. Uma sombra certamente se movia.
- Por favor me ajude!- Supliquei.
E algo branco, se revelou no final do corredor, começou a se aproximar, foi então que eu percebi que era um rosto, flutuando na escuridão, branco como mármore, e um medo súbito me tomou, e me fez recuar até a parede oposta a grade. Meu coração pareceu sair do meu peito com a força dos batimentos. Lentamente aquilo foi se aproximando até ser iluminado pela luz do elevador. Uma grotesca imagem distorcida, com membros tortos como em um filme de terror, agachada sendo suportada pelos braços e pernas estranhamente contorcidos, olhou para mim com olhos semiabertos, um cabelo preto escorrido que preenchia sua cabeça curvada.
O elevador começou a subir e eu paralisada olhava aquela coisa me observando por de trás das grades, o elevador subiu até todo o quinto andar desaparecer. Em choque comecei a chorar, eu ainda estava presa naquele maldito elevador, que parou entre o quinto e o sexto andar, as lagrimas escorriam sem parar, foi então que em algum momento adormeci. Acordei com o corpo de bombeiros abrindo as grades, eu me encontrava no quinto andar, todos muito preocupados. Ming foi o primeiro que veio em minha direção.
- Senhorita Parker me perdoe pelo que aconteceu, Tomarei as providencias necessárias, pode confiar em Ming.
Logo depois veio a senhora Riggs me abraçando transtornada, ela me contou que Jhon havia me encontrado, presa no elevador desmaiada, e ligou para o corpo de bombeiros.
- Ficou tão lindo, devíamos ter feito isso a muito tempo.- desabafou um dia a senhora Riggs sobre a melhoria.- A senhora Ming ficaria tão contente com isso.
- O senhor Ming é casado? – perguntei surpresa
- Viúvo minha querida, ela faleceu de forma trágica. Caiu no poço do elevador, por isso acho que ela gostaria da reforma, talvez se tivéssemos feito isso antes poderíamos ter evitado essa tragédia.
- Como assim caiu no poço?! – perguntei abismada.
-Ai minha querida e uma história muito triste para se contar, eu gostava tanto dela éramos vizinhas, na época eu morava no quinto andar.
Não me lembro do restante da história da senhora Riggs, o choque foi demais, lembro apenas de entrar no meu apartamento, pegar minha xícara e enchê-la com o whisky do meu pai. Desde então comecei a gostar de whisky.



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