31 de Outubro de 1990 A chuva caia de forma vigorosa e raios dançavam sob o céu escuro ao som de trovões, que por sua vez faziam com que ...

A sombra do céu (Prólogo)

31 de Outubro de 1990
A chuva caia de forma vigorosa e raios dançavam sob o céu escuro ao som de trovões, que por sua vez faziam com que talheres , pratos e xícaras vibrassem com sua força.
Me encontrei encharcado da cabeça aos pés, e tive que procurar abrigo no café Suzane, aquele que ficava na frente do píer. Linda a garçonete, ao me ver, trouxe uma xícara de um bom e quente café.
- Aqui John, para te aquecer- Deixou o café que logo esbanjou um cheiro delicioso .
- Obrigado.
Passaram se alguns minutos,  e eu já me encontrava quase seco, mas nada nem mesmo uma singela enfraquecida, ou sinal de que iria enfraquecer, deu a tempestade. Comecei a olhar o mar que  estava oculto na escuridão que reinava fora do café Suzane. Senti uma leve sensação de solidão, como se estivesse olhando para um abismo do qual  eu estava prestes a  mergulhar. De súbito me virei e comecei a ver televisão, na tentativa de pensar em outra coisa, isso já havia me gerado calafrios demais.
Após um tempo decidi por vez observar novamente o ambiente, mas me limitei a olhar apenas o interior do café . Haviam exatas oito pessoas,  eu, mais quatro clientes, duas garçonetes e o cozinheiro, que não saiu da cozinha em nenhum momento. Entre os clientes , duas amigas que provavelmente tinham acabado seus expedientes no parque de diversões ali das redondezas, ambas estavam com uniformes do parque, e acabaram se abrigando da chuva no café.
Os outros dois clientes, pai e filha. O pai um homem corpulento que não tirava os olhos do jornal, e a filha uma criança de aproximadamente cinco anos de idade  brincava incessantemente com sua luneta.
Voltei os olhos para o jornal do pai, do qual se encontrava completamente seco, logo pensei eles estão de carro, me virei em direção a janela que dava de frente com o estacionamento, e ali estava uma pick-up Ford  prata .
- BINGO !
- Disse alguma coisa querido?
- Ah ! Não. estava apenas pensando alto.
Me retratei com um sorriso
- Cuidado John, você vai acabar ficando doido desse jeito.
Me repreendeu Clara a outra garçonete, do qual viverá boa parte de sua vida trabalhando ali.
Voltei a meus pensamentos, porém antes mesmo de terminar a linha de raciocínio, um estrondo arrebatou, e tudo foi ao chão, inclusive as pessoas .
- MINHA NOSSA ! Disseram as amigas
- SANTO DEUS ! Indagou Linda a garçonete
Todos ficaram estarrecidos. Eu logo pensei , se tratar de um trovão porém fora muito forte para ser um simples trovão, todos levantaram e se empenharam em arrumar tudo, inclusive a si mesmos.
-Papai o que é aquilo ?!
Gritou a criança de  luneta em punho apontando na  direção do mar .
Todos se aproximaram,  ate mesmo Bill o cozinheiro abandonou sua cozinha para checar.
- OH MEU DEUS ! falou após olhar na luneta e passa-la
- DEUS MISERICORDIOSO!  Disse Linda fazendo o sinal da cruz com a mão e passando a luneta.
- Mais que merda e aquela ! Indagou o pai incrédulo
Peguei a luneta, e de inicio nada encontrei, porém ao cair um raio que iluminou o céu , algo distante no horizonte apareceu.  De inicio achei se tratar de uma montanha, porem gradativamete minha visao comecou a dar contorno e forma. Foi então que eu percebi um  ser , monstro ou seja lá o que era aquilo que estava no mar , gigantesco como uma sombra negra que se projetava distante no oceano.
- Filho da puta ! – indaguei ao perceber que aquilo estava crescendo com o tempo.
Sim! Ele vinha em nossa direção.
O desespero tomou conta do grupo, que andava de um lado para o outro desordenadamente. Confesso que até mesmo eu entrei em pânico, mesmo em silêncio, eu estava apavorado por dentro. Passei a mão em meus cabelos úmidos e acendi um cigarro, do qual dei uma longa e demorada tragada. Foi então que Bill o cozinheiro decidiu controlar a situação.
- Se acalmem! – gritou com uma voz de trovão.- precisamos sair daqui  nesse exato momento, arrumem se e vamos dar o fora daqui !
Utilizou de um autoridade digna de um sargento , o que se mostrou efetivo pois todos começaram a se organizar, dando uma leve acalmada nos ânimos que estavam a flor da pele.
Eu me encontrava com estado de espírito abalado, como se estivesse sendo observado ou algo do gênero,  um fio de  intuição parecendo me mostrar alguma coisa. Fui despertado de meu devaneio pelo pai dizendo sobre seu carro e que daria para todos caberem caso alguns ficassem na caçamba, sua voz saiu como um sussurro sem ar porém foi ouvida por todos que logo se moveram em direção a o estacionamento. Exceto por  Linda que com seu jeito dedicado de ser , desde de minha infância fora assim , estava organizando o máximo possível o seu precioso café do qual dedicou sua vida toda  e o amava de paixão.
- Vamos linda , temos que sair . Falei pegando em sua mão e gentilmente a puxei em direção a saída.
Era nítida a dor em seu olhar , o Café Suzane era tudo o que aquela senhora de meia idade possuía,  e abandona-lo, era algo que lhe partia o coração. Relutante mas consciente da situação me seguiu com amargura.
Saímos do café e nos deparamos com o fim da chuva de modo repentino, todos olharam para o céu,  porém apenas eu olhei com certa estranheza
- Graças a deus pelo menos a chuva cessou , não  estava mais aguentando. – desabafou Clara
E foi então que entrei em uma espécie de devaneio, como se o tempo congelasse e naquela fração de segundos a intuição que antes estava querendo me falar algo começou a sussurrar em minha mente .
“talvez você  não tenha visto corretamente,  pense John aquilo o que era aquilo?
Poderia ser  maior do que você imagina Jhon, e mais rápido e mais silencioso do que você pensa, observe o céu. Cuidado Jhon! ”
Olhei para aquele vasto céu negro , um breu se erguia no horizonte. subitamente  pareceu  cair em nossas cabeças, a chuva não cessará,  a coisa que a cobria .
Foi como uma explosão, tudo foi aos ares, não teve tempo de dor de gritos ou mesmo de sangue , em segundos tudo se tornou destroços e a escuridão nos engoliu .
Me recordo de despertar no meio de escombros, esmagado por pedaços de parede,  não me dei conta mas estava com o braço quebrado, algumas costelas e o fêmur fraturados . Com esses olhos que hoje vejo com nitidez as folhas de papel que agora escrevo, eu vi no vasto céu negro , duas grandes esferas amarelas tão imensas que pareciam luas orbitando a escuridão. Eram olhos que me fitavam de longe bem do alto , mas que estavam fixos em mim como se soubessem que eu também os observava. Olhos dos quais nunca esqueci e duvido esquecer algum dia , mesmo hoje ainda tenho pesadelos com aqueles olhos , a sensação da qual eles me proporcionaram , algo tão medonho que não consegui nunca encontrar palavras que os descrevessem, o medo a sensação de impotência e inferioridade que me atingiram e me acompanharam como uma sombra todos os dias de minha vida. Aqueles malditos olhos, aquilo certamente era os olhos da personificação do mal de algo antigo algo além da compreensão humana.
Logo depois fiquei inconsciente e os grandes olhos se foram dando lugar a escuridão total.
Quando despertei me deparei com uma cena que parecia um cenário pós guerra , carros indo de um lado para o outro , pessoas desesperadas , enfermeiros, médicos  bombeiros e policiais ajudando os muitos necessitados que suplicavam por ajuda . Tudo estava em pleno caos , principalmente eu mesmo . Demorei em torno de dez meses para me recuperar, e ainda hoje necessito de bengala para me locomover , e em dias chuvosos minha perna ainda dói , me fazendo recordar desse triste episódio em minha vida.
Porém, mesmo minha condição sendo crítica , não fora eu quem sofrera mais com o ocorrido. Clara a garçonete feriu gravemente a coluna o que lhe tirou o movimento das pernas, Tina uma das funcionárias do parque teve três costelas quebradas e necessitou de uma cirurgia de urgência  (algo que não pode ser feito com a devida  urgência, dada as circunstancias do desastre, o que quase lhe custou a vida ) e por último April, a criança que brincava com a luneta, perdeu o pai e teve que se acostumar com a palavra órfão.
Anthony O’Brien , o pai perecerá no local do acidente junto com Linda Martin,  Bill Thomas e Anna Philips, a outra funcionaria do parque. Todos se foram no próprio local do acidente , morreram na hora , e tenho certeza que mal viram a morte chegando.
Mariana s Bay se tornou  um amontoado de tijolos pedras e poeira , um terço da cidade desmoronou e se tornou mar,  tudo fora destruído não teve exceção  aqueles que não perderam absolutamente tudo , perderam a vida ou algum parente ou amigo.
Enquanto a criatura, permanece um mistério nenhuma foto capturou sua imagem e aqueles que supostamente viram a coisa tinha versões bizarras (mais do que foi o caso ) e sempre mudavam conforme o tempo.
O governo anunciou que o ocorrido foi ocasionado por um terremoto de magnitude 8.0
Muitos discordaram mas alguns preferiram engolir essa explicação do que a de um monstro vindo do mar .Enquanto eu... Eu ainda procuro descobrir a verdade, custe o que custar , pois aquela coisa, aquele monstro, nao poderia ser real , e mesmo que seja eu preciso acha lo e descobrir de uma vez por todas a verdade por trás daqueles olhos.

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