Brief beauty in The odd
As pessoas andavam de um lado para o outro apressadas, cada segundo um turbilhão de corpos passavam, concentrados em seus pequenos universos particulares. Andei alguns passos e me sentei no banco de madeira da estação. Um banco pintado, ou melhor , repintado de verde musgo. Puxei meu maço de cigarros do bolso e me dei ao luxo de alguns minutos de descanso.
A estação foi ficando vazia e o sol se escondeu no horizonte abrindo-se para a noite. As lâmpadas da estação se ascenderam, uma delas era projetada bem acima do banco e lançava uma luz fraca e piscante, tênue em alguns cantos. Algumas tragadas depois, vi pelo canto dos olhos alguém se sentar ao meu lado. Algumas tragadas a mais e percebi se tratar de uma mulher, ainda não dando muita atenção a minha companhia continuei em meu deleite meditativo.
O cigarro já estava ao fim e começou a queimar a ponta dos meu dedos. Me levantei procurando o lixo metálico mais próximo, apaguei o cigarro na sola do sapato e o joguei. Ao retornar ao banco me deparei com a imagem que se tornara fonte dos meus mais remotos sonhos. Ela era alta, magra, pálida e possui-a uma espécie de estranheza bela que instigava, atraia meu olhar como uma mariposa pela luz. Sua estranha fascinação se dava a seus cabelos negros como uma noite de inverno, chegavam a se confundir com as sombras de tão escuros, mas foi seu olhar, ao perceber que eu a observava, que penetrou na minha alma, eram olhos pretos que pareciam duas Ônix em uma estátua de mármore. Isso congelou meu coração e minha respiração ficou pesada. Por um instante acreditei estar perante um fantasma. Ao perceber minha estranha contemplação ela corou, ficando com o rosto quase todo rosado . Meio sem jeito desviei minha atenção, acendi outro cigarro e permaneci em pé.
Andei até ficar próximo da faixa amarela que demarcava o limite da plataforma. Me permiti a umas tragadas e fiz a fumaça dançar na minha frente. Um repentino frio subiu minha espinha, me senti sendo observado. Os pelos da minha nuca se eriçaram, e por um breve momento, fiquei receoso de olhar para trás e confirmar que aqueles olhos negros estavam á me observar. Mais uma tragada e me virei para checar. No entanto, ela estava imersa em um livro com a cabeça baixa e seus cabelos presos em uma espécie de coque improvisado. Me senti aliviado e um pouco tolo. Soltei a fumaça que estava presa na boca, não sei se com isso produzi alguma espécie de ruído, mas nesse momento ela olhou para mim apenas levantando os olhos. Uma sensação estranha me tomou, algo absurdamente bonito mas ao mesmo tempo aterrorizante. Como estar em um museu vendo belas pinturas e de repente uma delas move os olhos em sua direção. Dessa vez eu logo fiquei sem graça e decidi quebrar o contado visual . Talvez fosse coisa da minha cabeça, mas acredito ter visto pela visão periférica, um singelo sorriso apontar em sua boca.
O trem passou em um rasante de luz, e o som dos freios nos trilhos que gradativamente diminuíram até sua parada total. Ela se levantou demonstrando ser mais alta do que eu imaginava, andou até ficar ao meu lado aguardando a porta do trem se abrir. A luz do vagão a iluminou a deixando mais bela, suas feições eram delicadas mas marcantes, e sua palidez era salpicada por pequenas sardas. Ela me olhou com brilho nos olhos negros.
- Tchau. - disse, com um sorriso e uma voz doce.
E eu respondi
- Tchau. - Devo ter demonstrado certo embaraço, pois ela começou a sorrir.
Ela entrou no trem se sentou no banco oposto a porta e continuou me olhando até as portas se fecharem, lentamente o trem partiu e nunca mais a vi.

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